Parceiro criativo de Jim Jarmusch desde 2013, quando o realizador americano concorreu em Cannes com Only Lovers Left Alive, o brasileiro Affonso Gonçalves é o montador de Father Mother Sister Brother, painel afetivo que assegurou o Leão de Ouro ao cineasta, que é visto como um papa da estética indie desde a década de 1980. O montador tem no currículo Ainda Estou Aqui (2024), cuja estrela, Fernanda Torres, integrou o júri do recém-encerrado Festival de Veneza.
“Trabalhar com Jarmusch é um prazer enorme. Ele é um grande colaborador, que sabe sempre o que quer mas está aberto a sugestões e ideias”, explica Affonso porWhatsApp ao C7nema. “O Jarmusch é muito focado nas atuações. Em geral, é o que mais trabalhamos. Ele também compõe a música para o filme e nós dois vamos descobrindo o melhor jeito de usá-las”.
Apoiado num elenco monumental (Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps e Françoise Lebrun), Jarmusch, hoje com 72 anos, constrói Father Mother Sister Brother com foco em três histórias que tratam das relações familiares. Cada um dos capítulos se passa no presente, num país diferente. “Father” ambienta-se no nordeste dos Estados Unidos; “Mother” ocorre em Dublin, na Irlanda; e “Sister Brother” descortina-se em Paris, França. O guião oferece ao realizador de Broken Flowers (2005) e Down by Law (1986) um meio de promover autópsias em corpo vivo da harmonia entre parentes. É uma comédia dramática que se calça na melancolia. Ponto antes de finalizá-la, Affonso montou Peter Hujar’s Day, para Ira Sachs, exibido na Berlinale.
“Jarmusch, Ira Sachs e também Todd Haynes, com quem filmo muito, são artistas com quem um montador trava conversas profundas… e isso quando o filme ainda está só na fase de escrita. Eles pertencem a uma linhagem que não tem a obrigação de acatar as vontades dos estúdios”, explicou o montador, que hoje brilha no TIFF, em Toronto, com a sua parceria com Chloé Zhao: Hamnet.
Aos 58 anos, Affonso, nascido em São Paulo, vive nos EUA desde 1994 e estudou na London Film School, com mestrado no American Film Institute. O contato com Salles foi mediado pela prosa de Marcelo Rubens Paiva no livro (homónimo ao filme) Ainda Estou Aqui, que ganhou a láurea de Melhor Argumento em Veneza, em 2024. É um relato biográfico sobre a mãe do escritor, a advogada e ativista Eunice Paiva (1929-2018), e sua luta contra a tortura e as demais violências do estado nos tempos da ditadura. Em 1971, o marido dela, o engenheiro Rubens, ex-deputado, foi levado para depor e nunca mais foi solto. “A minha preocupação nesse filme era dar tempo ao/à espectador/a para conhecer aquela família bem, convivendo com eles por tempo o bastante para sentir a falta de Rubens quando ele desaparece”, diz Affonso, que fez ainda The Bride, com Maggie Gyllenhaal.
Affonso Gonçalves, o tempero brasileiro do Leão de Ouro de 2025
(Fotos: Divulgação)
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