Esperado nas seções de clássicos dos festivais de Locarno e de Veneza, que acontecem em agosto, o pilar do cinema ultrarromântico “Brief Encounter” (“Breve Encontro” em Portugal e “Desencanto” no Brasil) chega aos 85 anos em 2025 e vai celebrar a data, antes de qualquer grande evento europeu, numa retrospectiva brasileira: a mostra Eu Sei Que Vou Te Amar. O evento começa nesta quarta, dia 11, a reboque da celebração brasileira do Valentine’s Day (o Dia dos Namorados), que em terras sul-americanas é festejado em 12 de junho e, não, em 14 de fevereiro. A projeção do clássico do realizador inglês David Lean (1908-1991) – celebrizado posteriormente por épicos como “Lawrence da Arábia” e “A Ponte do Rio Kwai” – ocorrerá no sábado que vem, dia 14, no cine Estação NET Botafogo, às 20h10 do horário de Brasília (0h10 em Lisboa).
Numa das sequências mais apaixonantes do filme de culto “Fallen Leaves” (“Folhas Caídas”, em PT; “Folhas de Outono”, no BR), um (futuro) casal da classe operária da Finlândia vai a uma sala de exibição cheia de cartazes de clássicos, entre os quais o poster de um drama celebrizado como súmula amor romântico inalcançável. Essa joia é “Brief Encounter”, que fez a sua estreia mundial em 13 de novembro de 1945. Ao ser resgatado no mais recente sucesso do finlandês Aki Kaurismäki (hoje com destaque também no streaming, na Filmin.PT e na MUBI brasileira), a clássica trama romântica de Lean conquistou uma sobrevida sob os holofotes. Diante de toda a badalação assegurada por Kaurismäki, a longa-metragem passou a ser revista e aclamada. Agraciada com o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes num tempo em que o troféu era a láurea principal do evento (equivalente à Palma de Ouro dada atualmente), a saga amorosa de Lean foi indicada a três Oscars: Melhor Realização, Melhor Roteiro e Melhor Atriz, coroando Celia Johnson (1908-1982).
“O filme de Lean passa-se numa estação de comboio onde as personagens centrais, mesmo apaixonadas, não podem ficar juntas. Queria que os protagonistas do meu novo filme surgissem numa situação parecida, pois parece impossível eles se encontrarem, ainda que gostem um do outro”, disse Kaurismäki ao C7nema em Cannes, onde “Fallen Leaves” foi laureado com o Prémio do Júri, em 2023.
Eleito um dos dez maiores filmes de Inglaterra de todos os tempos numa sondagem feita em 1999 pelo British Film Institute, “Brief Encounter” nasceu da peça teatral “Still Life” (1936), de Noël Coward (1899-1873). Em sua trama, Laura Jesson (papel de Celia) é uma mulher casada, de classe média, que abre o coração para a plateia, deixando a sua imaginação fluir como se estivesse a confessar para o marido a relação que viveu com o médico Alec Harvey (Trevor Howard, numa estonteante atuação). Ela conheceu Harvey numa estação ferroviária, à espera do seu regresso para o lar. Ao longo de uma série de encontros, eles provam o amor, ainda que limitados pelo interdito, pelo facto dela ser casada. Nos anos 1980, essa mesma premissa inspirou “Falling In Love” (“Amor à Primeira Vista”, 1984), de Ulu Grosbard (1929-2012), com Meryl Streep e Robert De Niro a se amarem também numa malha de comboios.

