Filmes egípcios à conquista do mundo dos festivais 

(Fotos: Divulgação)

Além de servir para mostrar ao público egípcio um conjunto de filmes internacionais que dificilmente encontram espaço nas salas de exibição comercial no país, o Festival do Cairo serve igualmente de plataforma para exibir obras locais que não só traçam um panorama do cinema egípcio atual, mas que merecem uma exposição além fronteiras. Aqui ficam 4 filmes egípcios que merecem fazer uma carreira internacional.

Spring Comes on Laughing

Facilmente a maior surpresa que saiu do Festival do Cairo (13-22 novembro), vencedor de dois prémios, incluindo o da crítica internacional (FIPRESCI), este drama de língua afiada explora quatro histórias entrelaçadas, onde segredos, raiva e tristeza reprimida explodem, durante aquilo que deveriam ser celebrações, em discussões intensas, nas quais ninguém sai incólume.

Assinado pela estreante Noha Adel, que mesmo não dominando a terminologia cinematográfica tem nela o “beat” certo para criar uma fascinante exploração do poder da palavra e das emoções, “Spring Comes on Laughing” decorre durante a estação da primavera e celebra as suas histórias a partir de vinhetas que abarcam histórias que atravessam três gerações de mulheres egípcias que fogem aos estereótipos em relação à mulher no mundo árabe.

Poderosíssimo, inspirado na poesia egípcia clássica, na música e na beleza das paisagens do país, “Spring Comes on Laughing” não só revela um novo nome a seguir no mundo árabe, como também mostra, entre a modernidade e a tradição, dramas, conflitos e dúvidas com tudo de intemporal. E a energia, raiva e remorso que Noha Adel coloca em cena são absolutamente refrescantes num cinema egípcio que ainda não conseguiu dar o salto internacional (de forma continuada) desde que Youssef Chahine saiu de cena.

Abo Zaabal 89 

Vencedor do prémio de Melhor Documentário de Longa-Metragem na 45ª edição do Festival Internacional de Cinema do Cairo, onde esgotou todas as suas quatro sessões, “Abo Zaabal 89” conta a história real do pai do realizador, Mahmoud Mortada, um prisioneiro político preso no Egito, em 1989, partindo do relato extremamente pessoal para mostrar como as prisões políticas nas décadas de 1970 e 1980 tiveram um impacto nas vidas dos prisioneiros e das famílias.

Misturando a infância de Bassam – em particular uma viagem com a prisão – o documentário põe em relevo a dinâmica de uma família fraturada pela perda, num exercício de terapia (ou exorcismo de demónios internos), mas também faz a radiografia de uma época e de uma série de eventos intrinsecamente ligados ao Egito, mas que muitas vezes se sentem universais. Notável.

Teta

Fugindo dos jumpscares e sublinhando o drama e conexão entre uma mãe grávida e um filho ainda criança, “Teta” (que se traduz literalmente como avó) é uma curta-metragem (rara) vinda do Egipto que fundamenta a sua experiência sensorial numa estética primorosa e um trabalho de som meticuloso para criar uma atmosfera plúmbea que deixa o espectador frequentemente nervoso com o que virá a seguir.

Está no pequeno rapaz a (também rara) capacidade de comunicar com a avó através de palavras dirigidas à barriga da mãe, onde uma irmã germina. Delicado e sempre misterioso, “Teta” deve mais ao cinema de Jordan Peele que aos Paco Plazas da vida e as suas “abuelas”. Com um sentido de timing, sentido estético e sem pressas em mostrar serviço, Ahmed Samir faz um pequeno conto de horror capaz de invadir os festivais de cinema fantástico por esse mundo fora.

No Air To Breath

Num registo observacional derradeiramente interrompido por questões diretas lançadas pela realizadora Nesrine El-Zayat, a curta “No Air To Breath” explora a história de uma mulher na casa dos 50 anos que tenta aceder à sua própria casa enquanto se desenrola o processo de divórcio. Amante de arte, Soad, uma mulher egípcia que lamenta se ter casado com um agricultor,  conta ao espectador os obstáculos da sua demanda, viajando – no processo – por todos os desafios que enfrentou com todos os homens que passaram pela sua vida. Absolutamente inspirador.

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