Revelado a partir de 1960, numa sucessão de longas-metragens filmados na Bahia, a sua terra natal, Antonio Pitanga ganhou um novo alento internacional na sua carreira como ator – outrora já vislumbrada na Europa com “A Idade da Terra” – depois que San Sebastián projetou “Casa de Antiguidades” (2020) em seus Horizontes Latinos. Em plena pandemia, esse estudo sobre violências raciais ganhou o Velho Mundo e ampliou o espaço do seu protagonista no planisfério cinéfilo. A partir dali, novos convites para que ele atuasse surgiram e apareceu ainda a chance de, enfim, tirar do papel um projeto como realizador esboçado há quase quatro décadas: “Malês”. Nesta segunda-feira, esse épico sobre um levante contra a política escravocrata do Brasil do século XIX faz a sua estreia na Mostra de São Paulo.
Quase 45 anos depois do seu primeiro exercício como realizador, chamado “Na Boca do Mundo” (1978), Pitanga volta ao posto de cineasta filmando um enredo de Manuela Dias (autora de séries e novelas), que recria a realidade baiana em meados de 1830. Na ocasião, uma rebelião começou a ser arquitetada por africanos muçulmanos que aqui chegaram na condição de escravos. A revolta passa-se no final do Ramadão, mês do calendário islâmico em que o jejum é uma forma de celebrar Alá. Após o fracasso da revolta, esses manifestantes foram duramente punidos e a repressão contra as populações pretas no país aumentou. Apesar disso, o exemplo de luta e de resistência deles marcou a História pelo simbolismo intelectual de um povo que combateu o açoite com boas ideias.
“O ‘Malês’ começou quando eu filmei ‘A Idade da Terra’, do Glauber”, explicou Pitanga em depoimento ao C7nema. “Ele queria levar os baianos todos de volta para a Bahia, e disse: ‘Está na hora de a gente voltar para casa, Pitanga’. Com essa ideia de retornar ao nosso estado, um dos seus projetos era produzir essa história do levante, mas o Glauber morreu. O projeto ficou adormecido, até que vi ‘Amistad’ do Spielberg. Ali retomei a ideia. Fiz o argumento com o Orlando Senna e entreguei para a Manuela Dias escrever o roteiro”.
Com produção do Flávio Ramos Tambellini, “Malês” segue uma estética parecida com a de “Peterloo” (2018), de Mike Leigh, ao se impor mais como narrativa de estratégia, no rastreio dos bastidores do conflito que aborda. Na exibição no Festival do Rio, a crítica exaltou a atuação de Rodrigo de Odé e a figura vilã encarnada por Patrícia Pillar, uma dona de terras que maltrata os trabalhadores e esbanja racismo.
“Esse filme fala de um movimento que o Brasil não conhece e digo que esse projeto não é do Pitanga, tem que ser de todos. Quero exibir nas escolas, nas comunidades para que possamos discutir e ter uma aproximação da nossa História”, disse o ator, que aparece em cena ainda no papel de Pacífico Licutan. “Tenho mais de 60 anos de estrada, beirando uns 80 filmes no currículo, mas, cada vez que piso num set, é como se estivesse a começar. Sempre aprendendo”.

Exibições na Mostra

