Doclisboa arranca com os “sonhos e a poesia na rua” da Revolução de Abril

(Fotos: Divulgação)

Foi com casa cheia que a Sala Manoel de Oliveira no Cinema São Jorge recebeu a cerimónia de abertura do Doclisboa (17-27 de outubro), na qual prestou-se homenagem a Augusto M. Seabra, através da exibição de um excerto seu no filme de Edgar Pêra “O Espectador Espantado”, e foi exibido o filme “Sempre”, de Luciana Fina.

Após o mui característico (mas sempre irritante) atraso no pontapé de saída das sessões de abertura de festivais em Portugal, Paula Astorga subiu ao palco para falar das diversas emergências do mundo e como o Doclisboa apresenta “causas sustentáveis” num registo cultural que se sente como um “abraço”. A mexicana, que já tinha dito ao C7nema que o festival, mais do que pensar na ideia central de um autor, focava-se em “diferentes olhares”, agradeceu a todas as entidades, parceiros e equipa que permitiram a concretização do evento, que mais uma vez tem a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa e o Cinema Ideal como epicentro das suas atividades, a que se junta a Casa Comum do Bairro Alto, dirigida por Miguel Ribeiro, antigo diretor do Doclisboa, que Paula Astorga não esqueceu no discurso.

Chegados ao filme de Luciana Fina, após uma apresentação de Nuno Sena e da própria cineasta, o espectador assistiu, também ele espantado, a um trabalho exemplar de montagem (com muitas obras cinematográficas portuguesas na mistura) que partem das ideias de Abril e do passado recente da história de Portugal no período revolucionário em curso para falar do presente, onde as questões da descolonização, direitos das mulheres, habitação e educação (falta docentes, carreiras estagnadas) ainda anseiam  por respostas na sociedade.

Dando uma nova vida a um projeto que teve como base uma instalação que esteve exposta na Cinemateca Portuguesa, “Sempre” visita os “sonhos e a poesia na rua” da Revolução de Abril, “sem nostalgia”, mas como homenagem aos “melhores gestos do cinema”, como explicou Luciana Fina durante a sua apresentação, na qual agradeceu profundamente a Sara Moreira (Cinemateca) e Inês Moreira e Silva (RTP) pelo seu trabalho de arquivo e políticas de conservação. Para Luciana, “Sempre” reflete sobre “um cinema que não quis acompanhar a revolução, mas interferir na história. E um cinema que se desdobrou em formas diferentes, como o militante, de intervenção, direto (de inspiração neorrealista)  e de poesia. Um cinema que nasceu também no território das artes e que ocupou também ele o espaço da televisão (…) Este filme tem um grande respeito e admiração pelos cineastas desse tempo, mesmo os que não estão representados nele. Não estão aqui em “Sempre” os melhores filmes ou todos os filmes, mas aqueles podiam contribuir para a narrativa deste filme e para as suas escolhas poéticas“.

O Doclisboa decorre de 17 a 27 de outubro.

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