“Ainda vale a pena criar filmes para o cinema”, disse Nanni Moretti numa ironia à cultura do streaming

(Fotos: Divulgação)

Ao contrário da leveza e do clima prospetivo que marca a sua nova narrativa (“Il Sol Dell’Avvenire“) no grande ecrã, a conferência de imprensa de Nanni Moretti em Cannes, na manhã desta quinta-feira, foi das mais tensas de todo o festival, a começar por uma polémica com a cultura dos streamings.

Na longa-metragem, o protagonista (vivido pelo próprio Moretti), o cineasta Giovanni, tem uma reunião com uma equipa de executivos da Netflix, os quais são retratados de forma irónica, numa das sequências mais hilariantes da trama.

Usei o nome da Netflix, pois serve para todas as plataformas. Essa cena representa a minha sensação ao ver tantos realizadores, guionistas e produtores a aceitarem docemente o que as plataformas querem. Sinto que, esteticamente, ainda vale a pena criar filmes para o cinema. É o que vivo. Quando crio um projeto, não o penso para um rapaz que está em casa na Pensilvânia, fazendo o download de conteúdos no smartphone. Ainda acredito na experiência das salas de exibição“, disse Moretti.

Cannes classifica “Il Sol Dell’Avvenire” como o “8 1/2” de Nanni com ecos de Fellini. Ele foi elogiado na conferência de imprensa pelo seu desempenho no papel do realizador de verve socialista Giovanni. No auge da realização de um filme sobre a violência soviética contra a Hungria, nos anos 1950, visto sob a ética do Partido Comunista Italiano, Giovanni recebe golpes de onde menos espera. Além da falta de financiamento e uma intervenção da Netflix (a quem ele trata com o mais abrasivo escárnio), o seu casamento treme, uma vez que a sua mulher produtora, Paola (Margherita Buy), já não tem mais paz, nem paciência para as vaidades do seu companheiro. Neste momento, cena e vida real se misturam.

Quando escrevo um diálogo com as minhas colegas de guião, temos o cuidado de verificar se ele não soa artificial, ou muito literário. Depois, é no set, com calma, numa busca pelo take preciso, que as cenas nascem“, disse Moretti ao C7.

Houve ainda mais uma polémica quando uma jornalista mencionou o episódio ocorrido após o Festival de Cannes de 2021, quando Moretti afirmou estar “velho” ao ver que a Palma de Ouro daquele ano foi dada a um filme no qual uma mulher engravida de um carro. Era uma alusão dele a “Titane“, cuja realizadora, a francesa Julia Ducournau, faz parte do júri deste ano. “Não acho elegante falar do júri“, alertou Moretti. Mas, como a jornalista insistiu na questão acerca de como a sua perspectiva sobre o cinema mudou, após aquela polémica vitória, Moretti não se rogou a responder: “O meu ‘trabalho’ como espectador influencia o meu trabalho como realizador (…) a minha impressão acerca do uso da violência no cinema, que, aliás, rende uma discussão neste meu novo filme, não se aplica a todas as formas de cinema. Há pouco tempo, vi um filme iraniano de que gostei muito, ‘Holy Spider‘, que retratava a violência sem estetizá-la“.

Cannes termina neste sábado, 27 de maio, com a entrega de prémios e a exibição de “Elemental“, da Pixar.

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