Mães imperfeitas e feridas históricas por sarar. O regresso de Pedro Almodóvar

“Madres Paralelas” estreou nos cinemas nacionais a 1 dezembro

(Fotos: Divulgação)

Agora interessam-me mais as mães imperfeitas e questionáveis em períodos muito difíceis da vida. Anteriormente, era o contrário. As mulheres dos meus filmes eram inspiradas na minha mãe e nas figuras femininas que acompanharam-me em criança, como as vizinhas. Todas as mães omnipotentes dos meus filmes vinham daí. Mas nessa minha experiência, com mães reais durante a minha vida, também encontrei algumas que, por exemplo, não tinham instinto maternal. Neste caso, no “Madres Paralelas” (Mães Paralelas), interessei-me mais pelas mães imperfeitas”. 

Foto por Nico Bustos, El Deseo

Estas foram as palavras produzidas hoje em Veneza pelo espanhol Pedro Almodóvar quando apresentou, perante a imprensa, o seu mais recente filme, um melodrama novamente com foco nas mulheres, mas que invoca no seu pano de fundo os fantasmas do passado espanhol, nomeadamente os tempos da Guerra Civil e do Franquismo: “Este era um tema importante de abordar, pois creio que a sociedade espanhola tem uma divida enorme para com a família dos desaparecidos, muitos dos quais estão enterrados em fossas e valas indignas.

O tema do Franquismo e/ou dos desaparecidos tem sido abordado com maior vigor nas duas últimas décadas, primeiro na literatura e depois no cinema, através de obras de ficção (como ‘La Trinchera Infinita” e “Enquanto a Guerra Durar”) ou documentários (O Silêncio dos Outros). Ainda assim, para Almodóvar, a temática está muito atrasada na sua necessária discussão em Espanha, estando convencido que certamente a ala mais de direita do seu país, já com presença no parlamento, vai continuar o seu discurso negacionista em relação ao tema: “Quando começamos a trabalhar neste filme, este tema ainda não era muito falado pela imprensa. Houve uma lei – da Memória Histórica – criada em 2007 pelo Zapatero, mas era muito incompleta. E todas as abordagens ao tema vieram da esfera privada e não estatal. Queria dar visibilidade a este assunto, depois de 85 anos. Até que se pague essa dívida com os desaparecidos não podemos encerrar definitivamente este tema da nossa história recente e tudo o que aconteceu na guerra civil. (…) Agora é a geração dos netos e netas que pedem a exumação dos avós e bisavós. Isto surpreendeu muito as pessoas da ONU que vieram a Espanha para investigar sobre este problema, em 2014. Eles não entendiam como foi uma geração já nascida durante a democracia que perguntou pelos seus antepassados. A explicação é sensível: durante toda a ditadura as pessoas afetadas tinham muito medo e esse medo tornou-se em algo patológico que as impediu de falar. Nas casas espanholas, como a minha, por exemplo, nunca se falou na guerra. Era algo que tinha traumatizado a sociedade. E mesmo quando chegou a democracia em 1978 não foi fácil, com a lei da amnistia. Esta lei ajudou-nos a dar os primeiros passos para a democracia mas condenou os mortos e desaparecidos à não existência, como Franco já o tinha feito”. 

Mães imperfeitas

Aitana Sánchez-Gijón | La Biennale di Venezia – Foto ASAC ph Andrea Avezzù

Em “Madres Paralelas“, Penélope Cruz interpreta Janis, uma fotógrafa que engravida de Arturo (Israel Elejalde), um antropólogo forense casado que pediu ajuda para conseguir a licença para reabrir uma vala comum na vila da sua infância onde se crê estarem enterrados familiares desaparecidos nos tempos da Guerra Civil Espanhola. Depois de decidir avançar com a gravidez sozinha, é na maternidade que Janis conhece e trava amizade com Ana (Milena Smit), uma jovem que ao contrário dela não partilha da mesma emoção em ser mãe, já que a sua gravidez vem com um trauma associado.

A partir daí Almodóvar, com toda a sensibilidade que lhe é comum. além de um bom par de reviravoltas, acompanha a vida paralela e interligada de duas mães entregues a um fardo, mas também um dom, mostrando avanços e recuos, alegrias e tristezas, desafios e contradições, evitando qualquer julgamento, mesmo quando outras figuras no grande ecrã, onde se inclui Aitana Sánchez-Gijón, revelam atos fáceis de categorizar dentro do egoísmo e ausência de instinto maternal.

Senti-me profundamente agradecida por poder interpretar esta mãe sem qualquer vocação para o ser”, explicou Sánchez-Gijón, que desempenha no filme o papel de Teresa, mãe de Ana. “Uma mãe tão imperfeita que provavelmente estava destinada a outra vida dentro do seu estrato social. Para mim, a minha vocação é tão importante como o instinto maternal. Nem mais, nem menos. Nesse sentido, compreendo muito bem a minha personagem: alguém que apesar do sentimento de culpa segue adiante com a sua vida e vocação. Alguém egocêntrico, mas também uma lutadora na perseguição dos seus sonhos e necessidades”.

Penélope Cruz e Almodóvar: amor eterno

A personagem da Penélope, quanto mais complexa era, mais me interessava como realizador, pois era uma novidade para mim”, disse o realizador espanhol, enquanto a célebre atriz espanhola mais uma vez demonstrou o seuamor infinito para com Almodóvar: “Foi uma viagem muito intensa mas muito boa. Lembro-me perfeitamente da noite que li o guião deste homem que escreve coisas tão bonitas. É uma honra estar neste filme com um tema tão importante e numa personagem difícil, a mais difícil que tive até agora. Ensaiamos durante meses e há muito poucos realizadores que trabalham tanto tempo com os atores. Ele trabalha como um artesão em todos os departamentos e isso é raro. Para mim isso é ouro”.

Milena Smit, a descoberta

 La Biennale di Venezia – Foto ASAC ph Andrea Avezzù

A personagem da Ana foi a prenda mais bonita que recebi na vida, além da hipótese de trabalhar com o Pedro Almodóvar, claro. Para mim, a Ana representa a inocência no seu estado mais visceral. Ela vai adaptando-se à situação muito complicada que aparece no seu caminho (…) Ela descobre igualmente a própria perceção das coisas. Foi um prazer encontrar esta personagem e descobrir em mim coisas que estavam muito mascaradas ou escondidas”.

(Texto originalmente escritor durante o Festival de Veneza)

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