«Mientras Dura la Guerra» (Enquanto a Guerra Durar) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O novo filme de Alejandro Amenábar é uma desilusão

Santi Prego como Franco em Enquanto a Guerra Durar

Alejandro Amenábar demonstra coragem ao abordar um período conturbado da vida de uma Espanha ainda com feridas por sarar em relação ao franquismo, mas tudo neste Enquanto A Guerra Durar parece construído sob filtros padronizados, como se no cinema existisse uma “instagramização”, uma aplicação de templates esquemáticos que valida por si só um filme de época como bom ou interessante. Se uma fotografia for má, não há filtro que lhe valha, e é isso que o cineasta parece não entender.

E embora Enquanto A Guerra Durar sugira claras referências à situação presente em Espanha, de ascensão de outros fascismos (VOX, pois claro), tudo por aqui soa a profundamente esquemático e desgarrado, revelando que Amenábar parece ter desistido de inovar e reduziu-se ao que de pior existe na máquina industrial de Hollywood: fazer biografias mecanizadas, esperando que a História dos objetos em estudo e uma direção genérica sejam o suficiente para nos cativar.

Veja-se a cinematografia por aqui, a banda-sonora e mesmo a escolha de planos que o realizador – que vem de outro trabalho fracassado, Regressão – aplica. Idem idem, aspas aspas com a narrativa, um amontoado de factos apresentados por bonecos de cartão caricaturais que vagueiam como autómatas entre frases feitas pelo set.

No meio disto tudo, Karra Elejalde faz o que pode como o escritor espanhol Miguel de Unamuno, figura ímpar ligada à Universidade de Salamanca que, após numa primeira fase apoiar Franco, insurge-se publicamente contra ele e contra a colagem do seu regime ao fascismo. O mesmo se aplica a Santi Prego e Eduard Fernández, aqui como os generais Franco e José Millán-Astray, dois atores entregues a um guião solenemente aborrecido que não lhes dá mais vida além dos retalhos derrisórios da História e estória. Uma profunda desilusão.


Jorge Pereira

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