«O Silêncio dos Outros» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Num artigo no jornal Público sobre a exumação do General Franco, Jorge Almeida Fernandes cita o antropólogo espanhol Julio Caro Baroja, que, a propósito das guerras carlistas do século XIX, afirmou que “seriam necessárias pelo menos sete gerações para que desapareça definitivamente a recordação política e sentimental de uma guerra civil“.

No caso da guerra civil espanhola (1936-1939), Espanha “resolveu” politicamente a morte do general Franco e o fim do Franquismo com o chamado “Pacto del Olvido” (Pacto do esquecimento), lei de 1977 que juntou direita e esquerda no parlamento para assegurar que não existiriam processos judiciais a pessoas responsáveis pelo sofrimento em massa. O resultado dessa amnistia é que muitos torturadores e assassinos do antigo regime nunca foram perseguidos legalmente pelos seus atos, o mesmo acontecendo aos do outro lado da barricada, os republicanos, que – em muito menor escala – cometeram igualmente atrocidades, quer contra os nacionalistas, quer na guerra civil dentro da guerra civil, quando comunistas executaram anarquistas e “trotskistas”.

A verdade é que nunca ninguém curou uma ferida por se esquecer de como a fez, e essa é a verdade máxima a extrair deste O Silêncio dos Outros, um trabalho executado ao longo de seis anos com a produção de Pedro Almodóvar e a assinatura de Almudena Carracedo e Robert Bahar, um documentário sensível mas focado, que mistura imagens de arquivo com observações do quotidiano e entrevistas a vítimas, filhos de assassinados, e ainda mulheres que procuram desvendar o que aconteceu a centenas de milhares de crianças retiradas a pais republicanos e que foram distribuídas pelo sistema de adoção.

Esta observação de histórias pessoais no meio de uma tragédia coletiva de luta fraternal é executada com rigor jornalisticos pelo duo de cineastas, que seguem a crescente campanha popular para “derrubar” a lei de amnistia e levar os criminosos à justiça. É sempre difícil separar a linha entre justiça e vingança, mas Almudena Carracedo e Robert Bahar acima de tudo balanceiam e organizam o material que têm (sem imparcialidade), alicerçado-o em torno de um processo moral e judicial moroso e lento, onde não faltam sequências poeticamente arrebatadoras (com a cinematografia de Carracedo e a Banda Sonora a darem cartas), emocionalmente trágicas (a reabertura de valas comuns), e duramente burocráticas.

Com tudo somado, e apesar da monarquia, igreja e a máquina militar serem um pouco esquecidos na lente e visão crítica dos realizadores, que os colocam no bolo franquista sem mostrar o seu real peso nas decisões (pense-se nos inúmeros homens canonizados pela Igreja espanhola pela luta contra os “vermelhos”), O Silêncio dos Outros revela de forma intocável a urgência do tema e uma busca pela redenção que se advinha longa mas repleta de pequenas vitórias no percurso pela verdade.


Jorge Pereira

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