Num certame com mais de 70 anos e que envolve tantos egos artísticos como negócios implacáveis, seriam precisas várias páginas para narrar todas as polémicas, controvérsias, discussões, gritarias e até agressões que ocorreram em Cannes em todos estes anos.
Nesse sentido, avançamos com alguns casos curiosos, pois estão diretamente ligados a realizadores que não terão aceitado bem perderem a ambicionada Palma de Ouro, guerras entre os jurados na decisão da vitória, e ingerências do presidente do festival na decisão dos vencedores.
E olhando para o poster deste ano do festival, vamos mesmo começar por Spike Lee, que ainda tem atravessado na goela o facto de ter perdido a Palma de Ouro para “Sexo, Mentiras e Vídeo” no ano que lançou “Do The Right Thing” (Não Dês Bronca).
A vitória de Steven Soderbergh no seu primeiro filme em Cannes apanhou Lee de surpresa. O seu filme era o favorito e o realizador culpou diretamente o presidente do júri da época, Wim Wenders, por essa derrota. Consta que ele ouviu que o cineasta alemão considerou a personagem principal de Mookie “não heróica“. Sally Field, que também estava pelo júri, alegadamente também lhe disse que Wenders “odiou” o filme e que os colegas do júri não entenderam porque, no final, Mookie atira aquele caixote de lixo para a montra da loja onde trabalhava.
O cineasta afroamericano, muito irritado, perguntará posteriormente sobre o que existe de heróico na personagem interpretada por James Spader no filme de Soderbergh, o qual – com 26 anos na época – vence a Palma de Ouro. Atordoado com a vitória, o jovem realizador até se esqueceu da estatueta conquistada debaixo de uma cadeira.

“É melhor Wim Wenders ter cuidado porque estou à espera dele”, disse um Spike Lee em fúria. “Algures no fundo do meu armário, tenho um taco de baseball Louisville Slugger com o nome de Wenders nele.”
Porém, este não foi o único dissabor de Lee nesses tempos, pois a Academia de Hollywood esqueceu-se dele nas nomeações ao Oscar e de forma massiva nomeia e distingue “Miss Daisy”. Anos mais tarde, Lee arrepende-se das palavras e ameaças feitas a Wenders, considerando-as “imaturas“, mas ainda hoje não aceita ter sido suplantado por “Miss Daisy” nos Prémios da Academia.
No reino das indisposições com as decisões do júri em Cannes, a primeira e última visita da crítica de cinema Pauline Kael a Cannes foi no ano em que Robert Altman concorria com “Três mulheres” (1977). Kael era amiga pessoal do realizador, mas quando o filme só levou para casa o prémio de interpretação, atribuído a Shelley Duvall, Altman perdeu a cabeça, confrontando a jurada no aeroporto de Nice perante dezenas de testemunhas, disparando vários impropérios: “You f—ing c—, you were supposed to be my friend, you were going to get me the Palme d’Or!”. Uma cena chocante que não invalidou Kael de continuar a elogiar os filmes que se seguiram do realizador.
1977 foi, aliás, um dos anos mais complexos para quem estava no júri, pois existiram ingerências graves e pressões sobre o júri para atribuírem a vitória a determinados filmes. Com Roberto Rossellini como presidente do júri, os jurados preparam-se para dar a Palma de Ouro aos irmãos Taviani e o seu “Padre Padrone”.

O presidente do Festival de Cannes, Favre Le Bret, prefere premiar “Um Dia Inesquecível” de Ettore Scola e decide visitar o presidente do júri para mostrar a sua escolha. Esse júri, onde também se encontrava o realizador Jacques Demy, o produtor Anatole Dauman, a romancista Benoîte Groult, a atriz Marthe Keller e Pauline Kael, não gosta da abordagem de Le Bret e mantém a sua decisão. Favre vai mais longe e, numa rádio local, segundo as palavras de Kael, diz qualquer coisa como: “Hoje os restaurantes de Cannes não poderão servir a famosa salada niçoise pois todos os tomates foram comprados para serem atirados ao júri e à sua decisão”. Parte do júri, onde se encontra Kael, é mesmo impedido de estar presente na cerimónia de premiação. Oito dias depois do caso, Rossellini morre e o caso fica “arrumado” com a aura de escândalo.
Apenas dois anos depois, nova ingerência. Le Fevre – em clara proteção dos interesses e relações do certame com os norte-americanos – volta a pressionar o júri num combate entre David e Golias. Golias é o gigantesco “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola, mas a presidente do júri, Françoise Sagan, preferia a vitória de ”O Tambor” de Volker Schlondorff. Françoise denuncia pressões intoleráveis, numa edição que culminou num prémio repartido entre os dois concorrentes.

Anos depois, e na pequena história (ou estória) que se segue, as guerras invadiram também os jurados. Já sabemos que Elem Klimov recusou categoricamente dar a Palma de Ouro ao seu compatriota Nikita Mikhalkov, e que Ingrid Bergman em 1973, enquanto presidente do júri, manifestou um sério desagrado com “A Mãe a Puta”, de Jean Eustache, e a “Grande Farra” de Marco Ferreri.
Visitemos então 2009, quando Isabelle Huppert liderou o júri e alegadamente entrou em confrontação com James Gray, com este último alegadamente a chamá-la de “fascist bitch”. Gilles Jacob saltou em defesa de Huppert no meio dos rumores, descartando tudo perante a imprensa como um boato sexista inventado pela imprensa. Acreditando na lenda/rumor, no centro da confusão estava a paixão de Huppert por “Anticristo” de Lars Von Trier.
“O Laço Branco” de Michael Haneke, com quem Huppert trabalhou anos antes em “A Pianista”, levaria a Palma de Ouro (Huppert considerava-se parcialmente “comprometida” caso ele ganhasse), enquanto na realização o prémio seguiu para o filipino Brillante Mendoza e o seu “Kinatay”, cineasta que ela iria encontrar anos mais tarde em “Cativos”.
Na passadeira vermelha também existiram alguns confrontos, sendo um dos mais badalados aquele que colocou frente a frente Dolph Lundgren e Jean-Claude Van Damme, presentes no evento para promover “Soldado Universal”. Era uma noite de domingo em 1992 quando as TVs mostram Dolph e Jean-Claude empurrando-se e ameaçando-se, com os seguranças a travar a confrontação.
Desde então, foi relatado que tudo não passou de uma encenação e promoção ao filme onde atuavam. “Foi uma simulação“, disse François Frey, relações públicas de Dolph, em declarações ao canal por a cabo francês Action, em julho de 2000. Já Lundgren disse numa outra entrevista que tudo foi “parcialmente encenado“.

