Se há algo com que sistematicamente acontece no Festival de Cannes, durante ou depois das projeções, é a manifestação dos estados de alma do espectador, capaz de aplaudir efusivamente ou apupar violentamente. Ao longo de várias décadas ocorreram dezenas de exemplos disso mesmo, com alguns filmes a serem literalmente “obliterados” por jornalistas, críticos e outras figuras ligadas à indústria, não faltando obviamente concorrentes do próprio filme exibido.
No seu livro “Dictionnaire Amoureux du Festival de Cannes” (2016), o antigo presidente do certame, Gilles Jacob, aborda o tema, definindo três tipos de “buhs” comuns em Cannes: Primeiro, aqueles dirigidos ao certame e em especial ao delegado geral, Thierry Frémaux, como aconteceu quando “Last Face” de Sean Penn foi exibido na corrida à Palma de Ouro e massacrado pela crítica que não viu nele qualidade para estar na principal competição. “Um Cataclismo” disse o Libération, ou olhando para o que o C7nema disse na sua estreia: um filme semelhante a “esfaquear o coração com uma faca de manteiga”.
Depois existe um segundo tipo de vaias, o que condena o filme e o júri que atribui um prémio ou presta homenagem a um cineasta. Alejandro González Iñárritu sofre frequentemente deste tipo de vaias, com as salas de projeção a transformarem-se em “campos de batalha” entre palmas e apupos. Mas é provavelmente o caso de Maurice Pialat e da sua vitória da Palma de Ouro por “Ao Sol de Satanás” que se tornou o mais marcante, até porque decorreu na cerimónia de entrega do prémio em 1997, com direito a transmissão televisiva.
Mal foi anunciado o vencedor, parte da audiência reagiu com vaias ao triunfo, respondendo Pialat à letra com palavras dirigidas aos protestos: “Se não gostam de mim, posso também dizer que não gosto de vocês!“.
Dizem as más línguas que “Ao Sol de Satanás” nem era o vencedor desejado. O preferido desse ano era “Os Olhos Negros” de Nikita Mikhalkov, mas no júri encontrava-se Elem Klimov, que recusou categoricamente que a Palma de Ouro fosse concedida ao seu compatriota. Distante das ideias políticas de Nikita, atribui-se a Klimov a frase: “Se esse canalha, esse bastardo do Mikhalkov for recompensado, retiro-me do júri e tornarei a minha decisão conhecida com estrondo”. O júri liderado pelo diplomata Yves Montand decide então dar o prémio a Pialat, produzindo um novo escândalo.
Segundo Jacob, temos finalmente ainda um terceiro tipo de apupos em Cannes, aqueles organizados por concorrentes desleais que tentam influenciar o clima das projeções para criar um hype positivo ou negativo. No seu livro ele recorda um caso em 2000, quando um agente de um filme que concorria à Palma de Ouro estava à porta da sala de exibições de “In a Mood For Love”, de Wong Kar Wai, a dizer a qualquer um que saía que o filme era horrível, tentando assim influenciar o gosto dos jornalistas.
Anos antes já tinham existido casos semelhantes, como em 1984, quando “La Pirate” de Jacques Doillon começou a ser apupado durante a apresentação dos créditos iniciais. Ninguém até então tinha visto o filme e as críticas começaram logo ali. Bizarro.
Estaríamos aqui até amanhã a escrever se fossemos mencionar todos os episódios de vaias violentas dirigidas a projeções de filmes ou na entrega de prémios no certame. Voltaremos a elas mais tarde, especificando alguns casos marcantes de provocação artística que provocaram reações violentas da audiência.

