“Vergonhoso. Deplorável”. Estas foram apenas algumas das palavras usadas pelos espectadores do Festival de Cannes após a exibição de “Irreversível”, o clássico de Gaspar Noé que conta com Monica Bellucci como uma mulher violada e com Vincent Cassel e Albert Dupontel à caça de Jo Prestia, o Le Ténia (O Ténia), que seria os responsável pelo ato criminoso e que se refugiara num espaço noturno chamado Rectum. “C’est toi le ténia?”, ouviu-se tantas vezes da boca de Cassel….
O filme estreou a 24 de maio de 2002 em Cannes e muitos nem conseguiram assistir à obra até ao fim. Pelo menos um espectador desmaiou e duas cenas marcaram profundamente a audiência. Primeiro, uma cena do final da história, o que – num filme com os eventos a surgirem no ecrã de forma cronologicamente invertida – ocorre passados apenas alguns minutos do início da fita.
A cada vez que o extintor batia na cara do suposto Ténia, os espectadores desviavam o olhar. Depois, claro, a muito falada cena da violação, que com os seus 9 minutos continua a chocar, incluindo a própria Bellucci, que posteriormente afirmou que nunca mais conseguiu ver a cena. Na verdade, passados poucos minutos da exibição muitos abandonaram a sala e mostraram o desagrado perante as câmaras.
“Houve muitos gritos e vaias na plateia em Cannes; as pessoas abandonaram a sala para expressar a sua indignação “, lembra Noe. “Cannes é o único lugar onde as pessoas reagem aos filmes da mesma forma que fariam num debate político ou num jogo de futebol do Campeonato do Mundo. Quando vejo um filme que não gosto, sou o primeiro a vaiar e gritar, por isso sinto-me realmente em casa”.
O escândalo acabou por beneficiar o filme. Foi um grande sucesso em França e o mais visto do ano – à frente de ‘Amélie‘, por exemplo, em países como a Turquia e a Grécia. “Hoje em dia, taxistas e polícias ainda me procuram para falar sobre o Irreversível.“, diz Noé.
Este não foi de todo um “choque pioneiro” em Cannes. Viajando até 1973, nesse ano o italiano Marco Ferreri apresentou no festival “O Grande Banquete” (Prémio da Crítica Internacional), onde não faltavam situações de gula, excrementos, sexo e morte. O público da noite de gala em Cannes não aceitou o filme e efusivamente vaiou a obra durante a sua apresentação, citando Gilles Jacob mesmo alguns gritos que lamentavam que tudo o que estavam a ver no grande ecrã tinha o apoio do estado, que financiou o filme.

Os atores (Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Ugo Tognazz) saem da sala sob gritos, punhos erguidos e até cuspidelas. A imprensa também se divide na sua avaliação, caindo frequentemente as críticas em avaliações morais. Até mesmo Ingrid Bergman, presidente do júri neste ano, não simpatizou de forma alguma com a fita, tal como também aconteceu com “A Mãe e a Puta” de Jean Eustache, que estreou também nesse ano no festival.
Gilles Jacob conta que Marco Ferreri estava maravilhado com a reação das pessoas, respondendo “olhos nos olhos” às objectivas da imprensa perante a polémica. Aos assobios da multidão, respondeu com beijos e acenos. Um sucesso tremendo, para ele.
Passamos então para uma terceira bomba durante a sua passagem por Cannes, o polémico “The Brown Bunny” de Vincent Gallo, que chegou a ser definido na época (2003), pelo falecido crítico de cinema Roger Ebert, como o pior filme de sempre na competição cannoise.
De acordo com Gallo, a forma inapropriada como Ebert se comportou durante a exibição de Cannes afetou toda a reação do festival ao filme, tendo o falecido crítico supostamente começado a “gritar” em voz alta, na sala de projeção, nos primeiros 20 minutos de exibição. Mais, os problemas começaram logo em meros seis segundos: “uma variedade barulhenta de vaias, assobios, risos, escárnios e gritos de “narcisista”abafaram a banda sonora na abertura do filme. Algo se passava”.

Com o passar dos anos e uma nova versão do filme trabalhada por Gallo, a opinião de Ebert alterou-se, mas o “enfant terrible” dos cineastas norte-americanos continuou a achar que a história estava muito mal contada. “A verdade é que, diferentemente das muitas alegações de que o filme inacabado exibido em Cannes seria 24 minutos mais curto que o finalizado, era apenas 8 minutos mais curto. (…) Os cortes que fiz para terminar o filme depois de Cannes não foram muitos (…) Se não gostasse do filme inacabado em Cannes, não gostarias do filme finalizado e vice-versa. Roger Ebert inventou a história e a sua premissa porque depois de chamar o meu filme de literalmente o pior já feito, percebeu finalmente que não era do seu interesse ficar preso àquele mantra.”
Vários outros filmes provocaram comoção, como “Funny Games”, de Michael Haneke, ou “Max, Mon Amour”, de Nagisa Oshima, o realizador de “Império dos Sentidos”. Se a violência do austríaco foi a principal razão de escândalo na sala, no caso do filme do japonês ninguém conseguiu bem lidar com a relação de afeto entre Charlotte Rampling e um macaco.

