Muitos têm definido a edição 2021 do Festival de Cannes como um regresso às origens da secção Un Certain Regard, tal a predominância de primeiras e segundas obras, ainda que surjam pela programação alguns nomes já estabelecidos.
Ao todo – e para já – são 18 os filmes selecionados, que vamos aqui explorar um pouco mais. Sigam-nos nesta viagem.
“After Yang”, Kogonada
Esperava-se com ansiedade o novo trabalho de Kogonada, ele que brilhou intensamente com “Columbus” em 2017. Agora ele leva-nos a um futuro próximo, onde uma família enfrentará questões de amor, conexão e perda após o seu ajudante de I.A. avariar-se inesperadamente.
Colin Farrell,Haley Lu Richardson, Golshifteh Farahani e Jodie Turner-Smith fazem parte do elenco.
“Blue Bayou” de Justin Chon

Justin Chon, que deu nas vistas com “Assim é Complicado” e “Gook”, leva até Cannes a história de uma família americana a lutar pelo futuro, e conta nessa viagem com a presença de Alicia Vikander no elenco.
Ele mesmo interpreta Antonio LeBlanc, um coreano adotado que é criado numa pequena cidade no bayou do Louisiana. Ele casou com o amor da sua vida, Kathy [Alicia Vikander], e é padrasto de Jessie. Lutando por uma vida melhor para a sua família, ele deve enfrentar os fantasmas do passado quando descobre que pode ser deportado do único país que já chamou de lar.
“Bonne Mère“, Hafsia Herzi

A consagrada atriz Hafsia Herzi, já com cerca de 50 títulos nos créditos entre o cinema e a TV, regressa a Cannes com a sua segunda longa-metragem, isto depois de por lá ter passado em 2019 com “Tu mérites un amour”.
Agora a francesa de origem argelina apresenta “Bonne Mère”, a história de uma emprega de limpeza nos seus cinquenta anos, Nora, que cuida da sua família num conjunto habitacional no norte de Marselha. Ela está preocupada com o seu neto Ellyes, preso há vários meses por roubo e aguarda o julgamento com um misto de esperança e ansiedade. Nora faz de tudo para que essa espera seja o mais indolor possível …
“Commitment Hasan”, Hasan Semih Kaplanoglu

O turco Hasan Semih Kaplanoglu já tem uma carreira estabelecida no cinema e até já ganhou a Berlinale em 2013 com “Mel”, levando agora ao Festival de Cannes, onde já tinha passado em 2007 com “Yumurta”, a história de Hasan, um homem que ganha a vida na jardinagem e agricultura nas terras que herdou do pai.
Entre a sua viagem iminente a Meca para peregrinação, ele será incomodado pelas autoridades quando se pretende instalar um poste de energia no meio das suas terras.
“Delo” (House Arrest), Alexey German Jr.

Drama satírico do premiado Aleksey Guerman Jr. (Dovlatov; Under Electric Clouds) que oferece um estudo de personagem perfeitamente em sincronia com os eventos atuais na Rússia.
David, um professor universitário, usa as redes sociais para criticar a administração da sua cidade. Mas, em vez de as negociações duvidosas do presidente da câmara serem investigadas, o próprio David é acusado de peculato e colocado em prisão domiciliar. Apesar da vigilância autoritária, traição de conhecidos e crescente interesse dos Media, David continua a sua forma de ser desafiante e não vai pedir desculpa. Com o processo cada vez mais próximo, Davi terá alguma esperança de vencer esta batalha contra Golias?
“Freda” de Gessica Généus

Na estreia nas longas-metragens de Gessica Généus, que começou a sua carreira como atriz aos 17 anos, na longa-metragem de Richard Sénécal, “Barikad”, seguimos Freda,uma mulher que vive com a mãe, irmã e irmão mais novo num bairro popular do Haiti.
Eles sobrevivem com sua a pequena loja de comida de rua e a precariedade e violência fazem parte do quotidiano, o que os leva a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para escapar da situação na esperança de encontrar uma vida melhor.

“Gaey Wa’r”, de NA Jiazuo
“Gaey Wa’r”, que na IMDB tem o nome de “Remainder“, foi escrito e realizado por NA Jiazuo.
Foi apresentado pela primeira vez no 20º Festival de Cinema de Xangai (2017) na secção “Young Director Project”, onde se apresentou (ainda no papel) e foi considerado um dos dez novos filmes mais promissores daquele ano.
Já exibido como o WIP (Work in Progress) na 23ª Edição do Festival de Xangai, onde também saiu vencedor, o filme é baseado na maré de migração para Pequim, Xangai e Guangzhou nas décadas de 1990-2000, acompanhando as transformações num jovem de Chongqing que estava destinado a migrar, mas que não o fez. O realizador em estreia, com a ajuda do veterano Guan Hu na produção, explora o mundo interior deste homem, o seu estado mental e a sua experiência de vida única.
“Great Freedom” de Sebastian Meise

Nove anos depois da sua brilhante estreia com “Still Life“, o austríaco Sebastian Meise tem finalmente um novo filme, “Great Freedom”, para exibir.
Protagonizado por Franz Rogowski, que ainda recentemente vimos em dois filmes de Christian Petzold (“Transit” e “Undine“), e Georg Friedrich (Bright Nights), o projeto entrelaça períodos de tempo, seguindo a história de Hans Hoffman, um homem que passa a maior parte da sua vida adulta na prisão. Enquanto quase todos os prisioneiros são libertados dos campos de concentração no final da Segunda Guerra Mundial, Hans é transferido diretamente para a prisão, considerado culpado de homossexualidade de acordo com o Parágrafo 175, uma disposição do Código Penal Alemão em vigor desde 1872 e reforçada em 1935, que continuou a ser aplicada após o fim da guerra.
“La Civil”, Teodora Ana Mihai

Ana Mihai é uma documentarista e roteirista belga-romena que tem neste “La Civil” a sua segunda longa-metragem, isto depois de “Waiting for August” em 2014 ter tido sucesso, ganhando uma menção especial no Visions du Réel e uma nomeação aos Prémios do Cinema Europeu.
Projeto apresentado no TorinoFilmLab ainda em 2017, “La Civil” segue Cielo, uma mãe cuja filha adolescente é sequestrada no norte do México. Quando as autoridades não oferecem apoio na busca, Cielo resolve o assunto com as próprias mãos e transforma-se de dona de casa em militante vingativa.
“Lamb”, Valdimar Jóhannsson

O islandês Valdimar Jóhannsson, já com vários trabalhos noutras áreas além da realização, como em “Guerra dos Tronos” (Eletricista) ou “Rogue One: Uma História de Star Wars” (Técnico de Efeitos Visuais), tem como madrinha da sua estreia nas longas-metragens a sueca Noomi Rapace.
Em “Lamb”, um drama sobrenatural, María e Ingvar, um casal sem filhos, descobrem um misterioso recém-nascido na sua quinta. A perspectiva inesperada de vida familiar traz-lhes muita alegria, antes de finalmente destruí-los.
“Let There Be Morning“, Eran Kolirin

Já passaram 14 anos desde que Eron Korilin brilhou com “A Visita da Banda”, prémio FIPRESCI em Cannes. O seu ”Beyond the Mountains and Hills“ (2016) também passou pela Un Certain regard, onde agora regressa com a adaptação do romance de 2006 do escritor palestiniano Sayed Kashua, sobre uma vila árabe sob bloqueio israelita.
O filme, que tem a bênção de Kashua, gira em torno de um contabilista palestino com cidadania israelita que mora em Jerusalém e fica preso na sua aldeia árabe natal devido a um bloqueio do exército após retornar para um casamento na família. Esta experiência força-o a reavaliar as suas raízes da Palestina e a cidadania israelita.
“Moneyboys” de C.B. Yi

Há dois filmes com produção austríaca na Un Certain Regard e ambos têm a homossexualidade como foco temático. O primeiro é este filme estreia do chinês C.B. Yi, que segue um prostituto, Fei, numa grande cidade, cujo mundo colapsa quando percebe que a família aceita o seu dinheiro, mas não a sua homossexualidade. Com o coração partido, Fei luta para criar um novo começo na sua vida.
“Cresci numa pequena aldeia na China e ao longo da minha infância tive que cumprir tradições e expetativas sociais. Para ter a liberdade de escolher o meu próprio caminho de vida, tive que sair da heteronomia”, explica o realizador sobre a génese do projeto.
“Noche De Fuego“, Tatiana Huezo

No ano em que foi homenageada no Visions du Réel, a mexicana-salvadorenha Tatiana Huezo Sánchez chega a Cannes com um novo trabalho. Tatiana teve em “Tiempo cáustico” (1997) a sua primeira curta-metragem de destaque, estreando-se nas longas-metragens em 2011, com “El lugar más pequeño“, um documentário sobre a Guerra Civil de El Salvador.
Em 2016 ela estreou “Tempestad“, a história de duas mulheres que sofrem as consequências do tráfico de pessoas no México, pelo qual recebeu o Prémio Fénix 2016 de Melhor Documentário, e agora invade a Un Certain Regard com “Noche De Fuego” , projeto que segue a vida numa cidade em guerra, vista pelos olhos de três jovens a caminho da adolescência.
“Rehana Maryam Noor“, Abdullah Mohammad Saad

Depois de apresentar em Roterdão “Live from Dhaka” (2016), Abdullah Mohammad Saad conseguiu com este “Rehana Maryam Noor” o estatuto de ser o primeiro cineasta do Bangladesh com um filme na Seleção Oficial em Cannes.
O filme acompanha uma professora da faculdade de medicina, Rehana Maryam Noor, que testemunha um infeliz incidente a caminho de casa. Em nome de um aluno, ela parte para a luta contra o sistema, indo contra todas as probabilidades.
“The Innocents“, Eskil Vogt

O coescritor de filmes de Joachim Trier como “Oslo, 31 de agosto”, “Ensurdecedor” e “Thelma” deu nas vistas como realizador com “Blind”, vencedor do argumento original em Sundance (2014).
A sua segunda longa-metragem é descrita como um thriller sobrenatural e leva-nos a um verão na Noruega onde um grupo de crianças (de 6 a 12 anos) revela os seus poderes sombrios e misteriosos quando os adultos não estão a olhar.
“Um aspecto que quero aprofundar é a perspetiva de uma criança do mundo, onde tudo é mágico, mas também pode parecer perigoso, porque você não conhece os limites do mundo físico”, disse o realizador sobre o seu projeto ao Screen Daily.
“Un Monde” de Laura Wandel

Primeira longa-metragem de Laura Wandel, “Un Monde” acompanha Nora, de 7 anos, e o seu irmão mais velho Abel. Eles estão de volta à escola, mas quando Nora testemunha Abel sendo intimidado por outras crianças, ela corre para protegê-lo avisando o seu pai.
Porém, Abel força a rapariga a permanecer em silêncio. Presa num conflito de lealdades, Nora finalmente tentará encontrar o seu lugar, dividida entre o mundo das crianças e o dos adultos.
“Unclenching The Fists“, Kira Kovalenko

Depois de em 2016 estrear-se na realização com “Sofichka”, a russa Kira Kovalenko apresenta-se na Un Certain Regard com “Unclenching The Fists”.
No filme vamos até uma antiga cidade de mineração na Ossétia do Norte, onde uma jovem luta para escapar do domínio sufocante da família que ama tanto quanto rejeita.
“Women Do Cry“, Mina Mileva e Vesela Kazakova

Dois anos depois de “Cat in the Wall”, que estreou no Festival de Locarno, a dupla de cineastas búlgaras conta com a recente estrela de “Borat 2“, Maria Bakalova, no elenco nesta sua obra baseada numa história verdadeira.
“Uma cegonha-mãe é retirada de uma chaminé. Uma mulher quase salta de uma varanda após o parto. Uma jovem contrai HIV de um parceiro adúltero. Uma mulher maquilha dois gatinhos. Uma mãe procura magia no calendário lunar.
Estes eventos são comuns para esta família aparentemente normal, revelando a linha ténue em que vivem entre a fragilidade e o absurdo. É neste registo que quando o seu país, a Bulgária, é abalada por protestos contra o género e contra a igualdade com uma corrente de violência, estas mulheres unem-se e estão prontas para enfrentar o passado conturbado do pai. “, lê-se na sinopse do filme.

