Série das mais transgressoras da TV Globo no início dos anos 2010, Macho Man (2011), protagonizada pelo ator e realizador Jorge Fernando, já antecipava — e até com alguma inteligência — o mote que transformou Jim Queen na animação mais concorrida da primeira metade do Festival de Cannes de 2026: um dispositivo insólito que transforma gays em heterossexuais contra a sua vontade. Na série brasileira, era uma desculpa absurda: uma sapatada na cabeça durante um espetáculo drag. No hilariante filme de animação de Marco Nguyen e Nicolas Athané, existe uma doença chamada heterose. Quem é contaminado transforma-se naquilo que de mais caricatural a cultura queer imagina nos homens heterossexuais, incluindo a incapacidade de usar corretamente um supositório.

O humor contagiante, que poderia funcionar como arma contra a intolerância, resvala por vezes no caricatural e transforma personagens com potencial libertário em simples estereótipos. A abordagem à cultura influencer surge como particularmente condenatória, deixando de lado manifestações relevantes para o debate sobre homofobia e afirmação identitária. Já a cultura fitness é completamente triturada pelo argumento, que goza sem piedade com a obsessão pelos corpos perfeitos.

No meio de tantos ataques, os realizadores criam um protagonista memorável: o ursão Jim, celebridade das noites parisienses e ícone físico da comunidade queer, que vê fama, desejo e estatuto evaporarem de um dia para o outro após ser contaminado pela heterose.

Com uma enorme anarquia visual, incluindo uma direção artística de cores berrantes, Jim Queen faz lembrar o espírito trocista do underground animado europeu dos anos 1970 e 80, evocando também a memória de Rock & Hudson – Os Caubóis Gays (1994), de Otto Guerra. Os códigos das redes sociais são triturados através de uma montagem acelerada, sustentada por um discurso sobre a necessidade de pertença e o perigo da exclusão.

A produção pertence ao estúdio Bobbypills, que sai de Cannes com o prestígio em alta graças à forma como trabalha o kitsch. A capacidade do estúdio para lidar com géneros — da chanchada ao filme-catástrofe — faz lembrar Lesbian Space Princess (2025), o furacão animado da Berlinale do ano passado.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
jim-queen-anima-a-luta-pela-afirmacao-queerCom uma enorme anarquia visual, incluindo uma direção artística de cores berrantes, Jim Queen faz lembrar o espírito trocista do underground animado europeu dos anos 1970 e 80