Tratado pela crítica sul-americana como um dos dez melhores filmes brasileiros do século XXI, “Lavoura Arcaica” volta às telas de Portugal esta semana, com projeção na sala Medeia Nimas, em Lisboa, na quinta-feira, às 18h, com debate (ao fim da sessão) moderado por Joana Matos Frias. O realizador, Luiz Fernando Carvalho, fez uma aula de semiologia com essa produção de 2001, e ampliou um prestígio que já trazia da TV, onde filmou novelas de sucesso (“O Rei do Gado”, “Renascer”) e especiais com cara de telefilme (“Os Homens Querem Paz”, “Alexandre e Outros Heróis”). Ao mesmo tempo que renova os seus votos de afeto com a cinefilia lusitana, a adaptação do romance homónimo de Raduan Nassar, que celebra os seus 50 anos de publicação, ganha holofotes eem França, no 27° Festival du Cinéma Brésilien de Paris. O evento exibe ainda a longa metragem mais recente de Luiz Fernando, “A Paixão Segundo GH”, que também passa em telas lisboetas, na sexta, às 21h30, também no Nimas.
“Lavoura Arcaica” conquistou 52 prémios internacionais, entre Biarritz, Montreal, Lima, Havana, Trieste, Valdívia e em mais uma grande número de cidades, incluído Brasília, de onde saiu com seis troféus Candangos. Levou a cada uma das salas por onde passou a memória de um livro seminal para a língua portuguesa. Dizem que quem lê Marcel Proust, se embebeda e fica, eternamente, curando a ressaca sinestésica de sua ginja literária, retornando à sua prosa de ano em ano. O texto de Raduan tem um efeito parecido. Hoje, Luiz Fernando e ele trabalham num novo filme, já em produção.
O choque estético causado pela prosa de Nassar em Luiz Fernando conduziu o cineasta a filmar da maneira mais pessoal possível, sem fronteiras mercadológicas e sem compromissos teóricos. O seu corpo a corpo com a literatura trata o tempo como Tempo, com o T maiúsculo que ressalta a sua divindade. O Tempo é uma força demiúrgica que parece violar os Homens na sua fome de vitalidade, mas que é capaz de compensá-los com a iluminação, com o conhecimento. É sobre isso que versa a parábola do jovem que quer ser profeta da sua própria história. Ela versa sobre a incapacidade que o ser humano tem de aprender com a Eternidade, dançando a sua música sem obedecer a passos rígidos. Fotografado caudalosamente por Walter Carvalho, “Lavoura Arcaica” tenta traduzir em um jorro imagético a importância da ancestralidade no caminho de cada um. O protagonista, André, é um Hamlet rural, inconformado com a obrigação de se subjugar ao Pai. A personagem deu a Selton Mello (de “Ainda Estou Aqui”) a chance de depurar todo o seu ferramental de atuação. A figura paterna é encarnada por Raul Cortez e a mãe, sempre silenciosa e sofrida, foi encarnada por Juliana Carneiro da Cunha.
Embalado pela música de Marco Antônio Guimarães, “Lavoura Arcaica” já seria gigante apenas pela jornada de Walter Carvalho como diretor de fotografia, ao buscar na história das artes plásticas uma luz que sintetizasse o chiaroscuro daquele mundinho rural ensimesmado no seu próprio ethos. Ao deus Tempo, Walter e Luiz Fernando responderam visualmente com outra divindade: a terra. Tons telúricos desenham a agonia de André, com os seus pés no chão, mas com a alma a léguas de distância, a voar, à procura de harmonia. O que o Medeia Nimas vai ver é uma reinvenção da metáfora do Filho Pródigo da Bíblia, refeita a partir da metralhadora verborrágica que Selton é.
“Lavoura Arcaica” abre nova colheita em Lisboa
(Fotos: Divulgação)
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