“Silent Friend”, de Ildikó Enyedi, vence Prémio FIPRESCI

(Fotos: Divulgação)

A Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI) distinguiu na noite passada Silent Friend, de Ildikó Enyedi, com o Prémio FIPRESCI da Competição Principal da 82ª edição do Festival de Veneza.

Tendo como foco um jardim botânico de uma cidade universitária alemã, o filme coloca um ginkgo centenário como ponto de conexão a três momentos (1908, 1972 e 2020) e três histórias que demonstram diferentes tentativas humanas de conexão com a natureza. “Foi um cruzamento de documentário de natureza com cinema de ficção. Filmámos sempre no mesmo jardim botânico de Marburgo, fixando certos ângulos e lentes para mostrar as mudanças da percepção ao longo de mais de cem anos”, explicou a cineasta em Veneza, acrescentando que não era um filme guiado por enredo, mas por paixões humanas no contacto com a natureza.

O filme conta no elenco com o ator Tony Leung Chiu-wai, estrela de filmes como In the Mood for Love, Infernal Affairs e Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, no papel de um neurocientista que que estuda a mente dos bebés, mas que durante a pandemia Covid fica retido no local e inicia uma experiência inesperada com a velha árvore. “Recebi da realizadora quatro livros e vídeos sobre desenvolvimento cognitivo, inteligência das plantas e filosofia. Depois de estudar tudo isso, comecei a ver o mundo de outra forma. Antes via as árvores como simples plantas. Agora sinto que têm alma, mente, um “umwelt”. Passei a correr nos montes e senti-as como seres vivos iguais a nós. Foi assim que construí a personagem”.

O júri descreveu Silent Friend como “uma tocante exploração das ligações universais e dos vínculos não ditos que unem as formas de vida”, sublinhando que “ao longo da sua narrativa ousada, das interpretações subtis e de uma direção corajosa, o filme ressoou profundamente connosco. É uma grande conquista na arte cinematográfica”.

Já o Prémio FIPRESCI de Primeira Longa na Settimana della Critica/Orizzonti foi para Agon, de Giulio Bertelli, pelo “tratamento original de um tema muitas vezes representado no ecrã, a abordagem crítica ao corpo como mercadoria, o risco de misturar documentário e ficção e a mudança de perspetiva sobre atletas enquanto mulheres guerreiras, envolvidas na façanha impossível de igualar os seus corpos a máquinas”.

A obra acompanha três atletas femininas — uma esgrimista brasileira, uma atiradora russa e uma judoca italiana— enquanto se preparam para os Jogos Olímpicos fictícios de Ludoj 2024. Bertelli, que parte de uma estética que funde documentário e ficção, chamou à sua proposta artística de “realismo tecnológico” (techno realism), uma abordagem visual que desafia a mitologia do herói desportivo, destacando em vez disso o esforço, a renúncia e a solidão intrínsecos ao processo competitivo. Inspirado por figuras históricas como Joana d’Arc, Cleópatra e Nadejda Durova, o filme sugere uma reflexão sobre o desporto como legado de conflito transformado em espetáculo — evocando como algumas modalidades nasceram em contextos de guerra e evoluíram para símbolos de entretenimento e performance.

O Festival de Veneza termina hoje, 6 de setembro.

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