Não existem arrebatamentos nem loucuras de paixão nas veias dos “Chemical Hearts”que a Amazon Prime exibe a partir desta sexta em todo mundo, em parte por ser uma trama sobre um modo de adolescer mais contido, assolado pela angústia, e, em parte, pelo fato de termos tempos de mudança à nossa frente, tempos onde arroubos passionais são reprimidos pela moral. Mas como o verbo “amar” não pode ser conjugado sob a desinência do controle e da ordem, o realizador americano Richard Tanne parte dele para construir uma longa-metragem pautada pelo lirismo.
É um prato cheio para o intimismo que, hoje, tem vaga certa no menu dos streamings. Sensação de Sundance, em 2016, com “Michelle e Obama” (“Southside With You”), Tanne extrai, no seu novo filme, uma atuação impecável de Lili Reinhart, estrela da série “Riverdale”.
Ela protagoniza e produz o projeto, dividindo suas sequências de maior encantamento com Austin Abrams (o Marc de “This Is Us”), num contexto onde o querer ganha formas inusitadas. No enredo, o foco do cineasta é o universo dos ritos de passagem do fim da adolescência. Henry Page (Abrams) está prestes a terminar o ensino médio e partir para a universidade, gastando seu tempo vago no jornal da sua escola. A chegada de uma nova colega de bancada (e de redação), a enigmática Grace Town (interpretada por Lily), vai tirar o rapaz da inércia sentimental e abrir o dique do seu imaginário mais passional. Lily usa uma bengala para caminhar, por conta de uma fragilidade óssea em sua perna, que vai ser melhor explicada conforme o filme avança, revelando o segredo da introspecção da jovem e o motivo de sua rejeição aos cortejos (delicados) de Page.
De onde se espera um novo “A Garota do Vestido Cor-de-Rosa” (“Pretty in Pink”, 1986) nasce uma cronica sobre parceria, em meio à bomba hormonal do alvorecer da vida adulta. Na conversa a seguir, via Zoom, com a C7nema, Tanne faz as suas reflexões sobre como representar a afeição.
Existe um sentimento que parece servir de bússola à relação entre Grace e Henry e que vai além do amor: o medo. Qual é o temor que norteia aqueles jovens?
Existe nela, sobretudo, um sentimento de luto que a impede de seguir adiante, e isso é um medo. No caso dele existe o medo do fracasso. De modo geral… em especial na nossa adolescência… o medo nos desafia. Eu temo muita coisa. Só não tenho medo quando filmo. Mas sinto que essa história perpassa o medo pelo prisma do autoconhecimento.
Na sua trilogia iniciada em “Antes do Amanhecer”, Richard Linklater ensinou-nos que o amor pode ser falado. Mas o seu “Chemical Hearts” vai mais pela linha do silêncio. Fala-se pouco. Como construir uma ‘love story’ adolescente assim?
Primeiro de tudo, tenho dúvidas de que eu tenha feito uma ‘love story’, pois tenho a sensação de que a paixão transbordante em Henry é mais um fascínio, diante do desafio de um ideal de perfeição, do que um querer genuíno. Mas a beleza do cinema é que cada um tenha seu olhar e fico feliz se vocês virem o meu filme sob esse prisma. Sobre fazer silêncio… Albert Salas, meu diretor de fotografia, gosta muito de planos longos. É um artista de câmara na mão. Acho que o meu cuidado ali foi fazê-lo perceber a escuridão que existe naquele mundo interiorizado no peito de cada um dos personagens.
Qual é o peso da tradição de romances juvenis que você carrega aqui?
A tradição da representação adolescente é forte, indo de “Clube dos Poetas Mortos” a Sofia Coppola em as “Virgens Suicidas”. Mas confesso que usei mais conexões com filmes sobre adultos, como “Vertigo” do Hitchcock, do que o legado de John Hughes que, certamente, caminha comigo. A questão aqui é o encontro de dois mundos bem diferentes e como eles se harmonizam.
O que promete ser uma história de um “primeiro amor” resvala na amizade. Qual é o simbolismo dessa palavra aqui?
Grace precisa experimentar uma amizade. Não sei que lugar as histórias de amor terão no mundo, mas sei que passamos um momento em que sentimentos como o de amar são necessários. Tudo o que pode oferecer alguma esperança, como a amizade, é pertinente.

