Apesar de ter assinado filmes como “Personal Velocity: Three Portraits”, “The Ballad of Jack and Rose”, “Angela” e “The Private Lives of Pippa Lee”, a cineasta norte-americana Rebecca Miller nunca se impôs para além da periferia do cinema independente norte-americano. E mesmo que o seu mais recente filme, “She Came to That” (Viciados no Amor), tenha iniciado o seu percurso como filme de abertura do Festival de Berlim, a sua rota internacional, mesmo com uma mão cheia de estrelas, foi sempre limitada e repleta de tropeções nas reacções da crítica e público.

Comédia dramática que vive do inesperado, a la screwball, em “She Came to That” seguimos Steven (Peter Dinklage), um compositor de ópera em pleno bloqueio criativo que partilha a vida com Patrícia, uma terapeuta (Anne Hathaway) instável com ambições de se tornar freira. Com eles vive ainda o filho de 18 anos de Patrícia, Julian (Evan Ellison), que está apaixonado e namora com Tereza (Harlow Jane), a filha de 16 anos de uma imigrante que, por sua vez, é empregada da limpeza da casa de Julian e Patricia. 

Se o bloqueio de Steven é contrariado quando ele conhece Katrina (Marisa Tomei), uma mulher possessiva que navega uma embarcação, já o relacionamento amoroso do casal de jovens é posto em causa quando o padrasto de Tereza,  Trey (Brian D’Arcy James), faz queixa do rapaz maior de idade por má conduta sexual com a menor. 

O trailer, sabiamente, esconde toda a narrativa secundária do filme, focando-se primordialmente no tridente Dinklage-Hathaway-Tomei. Porém, no filme, esta história de topo facilmente é relegada para segundo plano quando o casal de jovens namorados se torna o foco das atenções dos adultos e existe a possibilidade de um enorme imbróglio legal.

Esta mudança de direção da história principal, algures a meio da narrativa, tem reflexos concretos na toada e atmosfera do filme, que da comédia rapidamente passa para o drama e acaba por derradeiramente se render ao singelo romantismo do “vamos nos amar para sempre”. E o pior é que nenhum dos géneros é servido convenientemente.

O resultado final, e embora o risco que a cineasta assume ao pegar em assuntos sérios para entregar uma comédia dramática sombria, é um objeto em constante mutação e repleto de ideias incompletas, o qual se tenta montar através de um humor negro desalinhado, que não raras vezes chega até nós pelo ridículo das situações apresentadas, como o momento em que Dinklage é seduzido por Tomei ou em que Anne Hathaway tem um colapso nervoso. 

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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