Lu Po-Shun trata a sua presença em Donostia, na secção New Directors, como um meio de falar de casa… ou seja, de Yunlin Kouhu, onde cresceu, em Taiwan. É lá que se passa Will You Still Be My Friend (Ri guang). Na sua trama, o jovem realizador procura a infância não como território de nostalgia, mas como um momento em que a amizade e o desejo de pertença ainda não foram inteiramente contaminados pelos códigos dos adultos. Aplaudida com ardor pela sua abordagem comovente da camaradagem, a longa-metragem acompanha dois rapazes numa região rural de Taiwan, fazendo do vínculo entre ambos o centro de uma paisagem transformada pela expansão da energia solar.
A delicadeza dessa relação afetiva convive com uma realidade económica que as crianças ainda não conseguem compreender inteiramente. Lu filma o campo e as mudanças provocadas pelos investimentos em energia verde, incluindo os conflitos geracionais que daí resultam, a partir da experiência geopolítica do seu país. O cineasta assume ainda a influência de Hou Hsiao-hsien na procura de uma ficção em que mesmo uma pessoa que atravessa fugazmente o enquadramento deve carregar consigo a impressão de possuir uma vida anterior e posterior àquele plano.
Ao C7nema, Lu Po-Shun falou sobre as cicatrizes deixadas pelas pessoas que desaparecem das nossas vidas.
O desenho sonoro de Will You Still Be My Friend parece ampliar o universo dos dois rapazes: existe o mundo íntimo deles, mas continuamos a ouvir tudo aquilo que acontece à sua volta. Como pensou e estruturou dramaturgicamente essa relação?
A história gira em torno destes dois miúdos e, por isso, o mundo deles é a primeira camada do som. Mas queria utilizar também os sons que existem fora desse mundo. O ambiente permite perceber aquilo que está para lá dos dois, aquilo que acontece à sua volta. É como agora: estamos aqui a conversar, mas existem pessoas lá fora, há uma festa, ouvimos os seus sons. Nós temos o nosso próprio mundo e a nossa conversa, mas, paralelamente, outras coisas estão a acontecer. É assim na vida.
A amizade é tratada com uma enorme delicadeza. O que existe por trás dessa forma de amar?
Escolhi protagonistas com cerca de 10 ou 12 anos porque acredito que, nessa idade, aquilo que um rapaz ou uma rapariga pensa sobre a amizade e sobre o que acontece à sua volta ainda é muito puro. Quando crescemos, talvez esse tipo de amizade pura já não exista da mesma maneira. Queria que esta primeira longa-metragem funcionasse como um espelho para os adultos: antes de entrarmos no mundo adulto, isto era aquilo que a amizade significava para nós.
O filme é uma coprodução entre Taiwan e Singapura. Como nasceu essa associação?
Uma das razões está dentro da própria história. O filme fala da energia solar, dos painéis solares e de algo que realmente aconteceu na minha terra natal. Muitas das empresas ou dos investidores ligados a esse processo vinham de Singapura. Portanto, fazia sentido incorporar esse elemento na própria produção.
Além disso, já conhecia o diretor de fotografia: fomos colegas e vivemos juntos durante a Golden Horse Academy. Quando decidi fazer a minha primeira longa, convidei-o para fotografá-la. Assim entrou também talento de Singapura no projeto.
Estamos habituados a uma imagem cinematográfica de Taiwan muito associada às cidades. Aqui apresenta-nos um território rural. Que Taiwan é esta?
É muito simples: estou a filmar a história da terra de onde venho. É aquilo que via todos os dias, aquilo que acontecia diariamente à minha volta: o desenvolvimento da energia verde, as razões pelas quais os adultos discutiam e os efeitos que todas essas transformações tinham sobre as pessoas.
Não pensei propriamente em mostrar uma Taiwan diferente daquela que aparece noutros filmes. Queria representar aquilo que acontece na parte rural de Taiwan porque essa é a minha experiência pessoal.
Há momentos em que a sua ficção se aproxima do documentário. A paisagem e as pessoas parecem existir independentemente da história. Até que ponto, conscientemente, o seu filme transita por estéticas documentais?
Hou Hsiao-hsien foi uma influência importante nisso, pois, nos filmes dele, ninguém é verdadeiramente irrelevante. Mesmo uma pessoa que quase não tem falas representa alguma coisa diante da câmara. Procurei retratar tudo da maneira mais real possível e trabalhei também com atores não profissionais, como ele fez. Mesmo que alguém esteja apenas a passar pelo plano, essa pessoa precisa de ter um passado próprio e uma personalidade que a torne diferente. Quero conseguir captar isso através da câmara.
Depois de escrever, filmar e terminar Will You Still Be My Friend, a sua própria ideia de amizade mudou?
O que ficou em mim foi algo próximo do arrependimento, embora talvez “arrependimento” não seja exatamente a palavra. Em algum momento da vida, todos tivemos alguém que foi importante. Talvez tenhamos perdido o contacto, talvez essa pessoa se tenha mudado ou simplesmente alguma coisa tenha acontecido. Existe uma tristeza nisso. Mas, mesmo que essa pessoa já não faça parte da nossa vida, podemos tentar reencontrá-la, restabelecer alguma ligação e, talvez, reparar aquilo que ficou por resolver.
A 74.ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prémios.

