Círio significa “vela de cera grande”, segundo o verbete impresso no mais popular dos dicionários da língua portuguesa do Brasil, o “Aurélio”, indicando que essa fonte de luz é usada em rituais religiosos cristãos, em procissões. Esse uso é tão frequente que os ritos iluminados à luz do pavio aceso se chamam círios, como é o caso do Círio de Nazaré, no Pará, que passa a ganhar um outro significado ao ser retratado pelas lentes do cineasta e produtor Belisario Franca no seu novo projeto: “Nazinha”.
Já em andamento, de olho nos presos que são liberados em induto para acompanharem essa festa do Cristo, o projeto engorda o leque de investigações temáticas que tornam o cineasta, na atividade desde 1988, numa das vozes mais plurais do cinema documental brasileiro atual. A sua pluralidade nota-se na escolha de temas que vão desde o chamado “Vietname Brasileiro” (retratado por ele em “Soldados do Araguaia”) até a experiência teatral da trupe Tá na Rua (que documentou em “Cena Nua”). Falou de música, de vivências amazónicas e até de uma célula integralista, de inspiração fascista e até nazista. Célula política que removia meninos órfãos do Rio de Janeiro para Campina do Monte Alegre/São Paulo para dez anos de escravidão e isolamento na Fazenda Santa Albertina, na primeira metade do século XX. Esse é o assunto de seu filme mais aclamado, “Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil” (2016), que vai ancorar, nesta segunda-feira (3 de agosto), às 19h (no Brasil/ 0h em Lisboa), a sua participação no seminário de estéticas documentais Na Real_Virtual. O simpósio é organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes, e segue no ar na web todas as segundas, quartas e sextas, até 14 de agosto. As suas palestras reúnem a nata do documentário das Américas, como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Cao Guimarães, João Moreira Salles, Carlos Nader, Emílio Domingos, Rodrigo Siqueira, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes e Walter Carvalho. Na entrevista a seguir, Belisario desbrava os seus horizontes audiovisuais para o C7nema.
De um agitador cultural como o diretor teatral Amir Haddad aos indígenas xavantes, a sua obra parece ter um dos escopos mais amplos do cinema documental brasileiro, em termos temáticos. Mas existiria uma linha que costure esse seu olhar sobre o real, alguma inquietação perene?
Talvez a gente possa pensar em duas fases diferentes, em termos temáticos. Na primeira fase, eu estava interessado principalmente nas questões da construção de uma identidade cultural brasileira, que passava também pela suas influências, por seus artistas e seus produtores culturais. São dessa fase séries documentais como AFRICAN POP, ALÉM MAR , MÚSICA DO BRASIL e 7 x BOSSA NOVA. Acho que eu tinha uma perspectiva mais amorosa, mais otimista até do que seria a nossa civilização brasileira. Eu era um viajante de um Brasil solar. Quando da minha primeira experiência com uma longa-metragem documental, que foi “Estratégia Xavante”, encarei um outro Brasil. Era o outro lado de uma mesma moeda identitária: a proximidade com a realidade indígena começou a chamar-me atenção para as histórias silenciadas, que eram muitas, e insistia-se para que ficassem nas sombras. Acho que fiquei mais céptico.
Qual é o perfil do Brasil que reside nos teus filmes? Que linha narrativa de nação se desenha no seu cinema?
Belisario Franca: A questão do silenciamento começou a ficar mais presente nos últimos documentários que realizei. Um traço muito presente na nossa sociedade é a negação: a negação do nosso racismo estrutural, a negação da nossa violência, a negação do nosso machismo, entre outros. O preconceito vem em pacote. E essa característica atravessa vários temas. O desafio de cada projeto é achar os dispositivos narrativos: pode ser mais sensorial (“Amazônia Eterna”), pode ser mais imersivo (“Menino 23”) ou mais testemunhal (“Soldados do Araguaia”).
Qual é o lugar da investigação como dispositivo nos teus filmes?
Mais do que a investigação, o que está em jogo num documentário, é fazer emergir uma verdade que é própria dele. Dou um exemplo do próprio “Menino 23”: a pesquisa dizia que na fazenda Santa Albertina, naquela década de 1930, havia um núcleo integralista. Com fotos e registos no cartório. Havia informações também sobre uma banda formada por meninos. Esses são os dados que foram investigados. Ao nos encontrarmos pela primeira vez com Seu Argemiro (um dos personagens centrais), mostramos para ele o hino integralista. A memória que estava enterrada há mais de 70 anos brota imediatamente e Seu Argemiro começa a cantar o hino integralista. Essa é a verdade do cinema. O cinema é capaz de articular uma verdade mais intensificada, condensada e talvez mais misteriosa do que um mero fato investigado.
Quais são os seus projetos atuais de cinema e qual é o lugar que as vitrines de streaming representam pra você hoje, como produtor?
No momento, estou a terminar um documentário chamado “Nazinha”. Nazinha é o apelido carinhoso que os paraenses (habitantes do estado do Pará) se referem a Nossa Senhora de Nazaré. Durante o Círio de Nazaré, em Belém, presos são autorizados a uma saída temporária para participar do evento, com suas famílias. É a data mais importante para qualquer paraense. Durante quatro anos, acompanhamos as idas e vindas de quatro presos. O que encontramos foi mais um silenciamento, pois não queremos saber o que acontece na nossas prisões. Não falamos do que acontece nas nossas prisões.

