Kirill Serebrennikov, Josef Mengele e um “crime sem castigo”

(Fotos: Divulgação)

Quando falámos, via zoom, com o cineasta russo Kirill Serebrennikov, em 2021, por ocasião do lançamento de “A Febre de Petrov” no Festival de Cannes, ele estava ainda envolvido num imbróglio legal no seu país que o proibiu de viajar para o estrangeiro durante três anos. Aí, ele apenas declarou que o que mais lhe interessava “era poder trabalhar”. Quatro anos passaram desde essa entrevista e muita coisa mudou na vida do realizador de “Leto”. Além de se ter radicado na Alemanha em 2022, logo após a suspensão da sua proibição de sair do país, Kirill multiplicou-se em trabalhos teatrais e óperas no continente europeu. Pelo meio, assinou ainda vários filmes, nomeadamenteA Senhora Tchaikovsky”; “Limonov: The Ballad”, e “The Disappearance of Josef Mengele”, que acaba de ser exibido em Cannes fora de competição.

Kirill SEREBRENNIKOV © Vahid Amanpour

Baseado no romance best-seller de Olivier Guez, o filme é protagonizado por August Diehl no papel de Josef Mengele, o “Anjo da Morte” e notório médico nazi que encontrou refúgio na América do Sul no final da Segunda Guerra Mundial. Narrado do ponto de vista de Mengele, que até ao fim fim viu-se como um executor de ordens ao serviço da grandeza do Fuhrer, a fita centra-se nos seus anos de fuga. “O filme não é tanto sobre o Mengele, mas sobre o sistema que o validou, empoderou e permitiu fazer o que fez”, disse Serebrennikov em Cannes, garantindo que a figura “era uma pessoa bastante aborrecida e vulgar, mas que o sistema (nazismo) e a guerra transformaram-no em alguém importante”.

Referindo-se à denominação de “monstro dos monstros” que caracterizou a descrição global a Mengele no pós-guerra, Kirill crê que ele foi transformado num emblema do nazismo, um sumário dos crimes, o que trouxe alguns problemas: “O lado bom de resumir numa pessoa o mal é que, capturando-a, fazes justiça. Porém, por outro lado, ao resumires tudo a uma só pessoa, todas as outras que foram criminosas como ela têm menos atenção, escapando na multidão.(…) Existem muitas pessoas desse regime que nunca ficaram famosas pelos seus crimes, como Mengele ficou, e que escaparam”.

The Disappearance of Josef Mengele

Crime sem castigo

Admitindo que não conhecia quase nada sobre Josef Mengele até ler o livro de Olivier Guez, o qual leu numa versão em inglês técnico pois ainda só existia uma publicação oficial em francês, que não domina, Kirill diz a vida de Mengele foi caraterizada por “crimes sem castigo”, pois “a Mossad não tinha recursos para capturar Eichmann e Mengele”, optando por aplicar os seus recursos na captura do primeiro, deixando assim o médico nazi livre, “ainda que o medo de ser apanhado o consumisse”.

Já a preparar um novo filme rodado em França, “Après”, onde terá no elenco Ludivine Sagnier, Fanny Ardant, Vincent Macaigne, Guillaume Gallienne e Louis Garrel, Kirill vai continuar a trabalhar no teatro e na produção de óperas, ainda que não o faça durante as filmagens de um projeto, por ser manifestamente impossível o fazer. “Saindo de Cannes vou para Amsterdão encenar Boris Godunov, a minha primeira ópera russa. É uma ‘pequena’ ópera com 100 pessoas todos os dias no palco (risos)”, brinca. “Fazer uma ópera ou cinema é similar, pois temos uma enorme pré-produção e uma curta duração dos trabalhos de encenação/ filmagens. Às vezes, uma ópera tem uma produção maior que um filme.”

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