A Febre de Petrov: Kirill Serebrennikov e a sinfonia do caos

Acredita em mim, o livro é bem mais complexo que o filme”. Estas palavras são as de Kirill Serebrennikov ao C7nema, numa entrevista via Zoom em Cannes, onde o seu “A Febre de Petrov” concorria à Palma de Ouro, mas ele não podia estar presente.

Estávamos em julho de 2021, em plena pandemia, e muita coisa desde então mudou na vida do cineasta, que na época enfrentava questões judiciais (três anos de pena suspensa) que o impediam de sair do país. Três anos se passaram e, além da Rússia ter (re) iniciado a sua guerra contra a Ucrânia, Kirill escapou do país, exilou-se em Berlim, lançou outros dois filmes (“A Senhora Tchaikovsky”; e “Limonov: The Ballad”) e prepara-se para estrear outro (“Disappearance”, sobre os anos em fuga de Josef Mengele).

Todo o rebuliço da vida do autor, na época, não o impediu de avançar com o seu filme, dizendo Kirill que odeia artistas que dizem que a arte é complicada. “Sou filho de um médico, um cirurgião. Isso sim é complicado. Para mim, filmar enquanto estava a ultrapassar todas aquelas questões foi a forma ideal de escapar da minha vida paralela.”

A Febre de Petrov

Baseado num romance do autor russo Alexei Salnikov, “A Febre de Petrov” movimenta-se entre realidade e imaginação e vários tempos na vida de um artista de banda desenhada e da sua família na Rússia pós-soviética. “O livro é bastante complexo e aborda vários períodos da vida da personagem: o passado mais próximo, o mais distante, além do presente e a imaginação. Inevitavelmente, a estrutura do filme é também complexa, mas gosto de cumplicidade em arte, neste caso vinda do livro, que nos mostra uma não binaridade das coisas, o preto ou branco, o bom ou mau, Deus ou o Diabo. Isso foi muito divertido, desafiante e excitante para criar este mundo do ‘Petrov’s Flu’. Nele existem várias camadas de realidade, delírio, ilusões, vida real e o seu passado“, explicou o cineasta, definindo os seus filmes, incluindo “Leto” e este “A Febre de Petrov”, mais sobre o presente do que sobre o passado, ainda que neste possa existir uma sensação de Caos: “Para mim, o caos é uma estrutura, uma enorme sinfonia com ligações entre o futuro e o passado. Não consegues fazer um filme sem clareza do onde e como”.

Definindo a sua história principalmente sobre “amor, família e um homem que se esconde dentro da sua própria imaginação artística”, Kirill recusa fazer qualquer analogia entre o filme e a própria Rússia, descrevendo-o antes como um trabalho “surreal e metafísico, sem interesse em ser alegórico, político ou social”.

 “A Febre de Petrov” estreou nas salas portuguesas a 10 de outubro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/rkmi