Foi um dos grandes filmes a estrear este ano no Festival de Sundance e certamente vai dar muito que falar durante o ano. Falamos de «The Spectacular Now» e, para já, vai ser a obra de encerramento do SWSX, prestigiado festival norte americano que começa em março.
O c7nema teve a oportunidade de falar em Park City com James Ponsoldt, o realizador que nos contou um pouco mais das suas influências e o que o leva a contar histórias sobre jovens adultos.
Gosta muito de contar histórias sobre jovens adultos. De onde vem esse interesse?
Contar histórias de adolescentes e as suas experiencias é algo que me interessa muito e posso dizer que frequentemente não vejo boas histórias sobre isso. Sinto que hoje em dia se minimizam as suas experiências; é tudo normalmente sobre sexo, estilo e frases feitas. Acho mesmo que muitas dessas histórias são executadas por pessoas de meia idade que escrevem aquilo que gostariam que a sua adolescência tivesse sido. Os filmes que realmente me tocam sobre esse período são os de Truffaut, Cameron Crowe, John Hugues e Ken Loach. Hoje em dia é como se os adolescentes e até os mais jovens tivessem parados no tempo. Há mais potencial que isso. Há sempre estradas divergentes e os adolescentes podem ir em tantos sentidos diferentes. Como acontece nos filmes que gosto. Eu quero que a audiência se apaixone pelas personagens, que queira andar com elas no dia a dia e que pense nas suas vidas, para além do fim do túnel que parecem ser as suas vidas.
Na crítica que escrevi ao filme [ler aqui], disse que «The Spectacular Now» era claramente reminiscente do filme «Say Anything». O que acha dessa comparação?
(risos). Sim. Totalmente. Quando o «The Spectacular Now» saiu eu fiquei louco quando o Cameron Crowe twitou sobre ele. Eu não vi o «Say Anything» quando saiu em 1988, mas apenas em 1991 ou 1992. Fiquei obcecado com ele. Creio ter a ver com a relação do Lloyd Dobler e da Diane Court. Existe uma vulnerabilidade, o amor, a desilusão e dramatismo. Não havia julgamentos. Havia um real sentido de empatia.
Como chamou esta história [The Spectacular Now] a sua atenção? Leu a obra do Tim Tharp em que o guião se inspira?
Eu li o livro, mas só mais tarde. Eu não queria adaptar o livro. O guião foi escrito pelo Scott Neustadter e pelo Michael Weber, autores do “500 Days of Summer”. Foi-me entregue depois de Sundance e fiquei fascinado. Imediatamente adquiri uma cópia do livro, li-o e adorei. A obra literária é ainda mais negra que o guião, mas este mantêm-se na visão do Tim Tharp. Na verdade foi quase uma evolução. Essencialmente, aquela história era uma forte representação daquilo que eu era, ou como eu me via aos 18 anos. Quando vi o Sutter, conhecia-o. Eu era aquele tipo que corria atrás da vida, do amor e queria que as pessoas me lembrassem por fazer coisas loucas. Que dissessem, sim, és o maior. Acabei por fazer escolhas boas, mas muitas delas foram pura sorte.
Enquanto os seus dois outros filmes, “Off the Black” e “Smashed”, foram escritos ou co-escritos por si, «The Spectacular Now» foi, como já disse, escrito pelos responsáveis de “500 Days of Summer” . Vê-se a realizar filmes escritos por outras pessoas ou vai voltar ao seu caminho de argumentista/realizador?
Antigamente pensava que só iria realizar o que escrevia, mas depois constatei que há argumentistas muito mais talentosos que eu – que apenas gosto de boas histórias. Há muitos prazeres e desafios no processo de fazer um filme. Eu tive a oportunidade de estar muito perto dos escritores de «The Spectacular Now» e foi uma colaboração maravilhosa. Adorei sempre tê-los envolvidos e nunca os tentei afastar. É uma experiencia muito diferente. A vida é curta e eu quero muitas experiencias. O que quero é contar grandes histórias e fazer grandes filmes.
Quais são as suas influências. Já mencionou o Cameron Crowe e o John Hughes. Quem mais?
As artes visuais são fulcrais, mas também estar com os amigos, trabalhar com miúdos, ouvir musica. Eu oiço toneladas de música e assisto a muitos concertos. Também vejo imensos filmes. Quando era miúdo adorava a saga «Regresso ao Futuro» ou «Os Goonies», mas quando estava no liceu comecei a ler revistas de cinema e livros do John Sayles e do Sidney Lumet. Vi o «M*A*S*H» e depois disso vi todos os filmes do Robert Altman. Existe uma lista de autores dos quais eu vejo tudo. Woody Allen, Atom Egoyan, Spike Lee, Mike Leigh, Paul Mazursky. São os cineastas que adoro e que estou sempre a acompanhar…
Ou seja…esta sempre em aprendizagem. Por falar nisso, li que estudou em Yale. Foi lá que estudou cinema?
Entrei na faculdade sabendo que queria fazer filmes. Tinha tudo planeado. Eu ia estudar cinema e psicologia, mas rapidamente me apercebi que só existiam duas turmas de produção cinematográfica. A maioria estava em teorias cinematográficas. Também percebi que queria estudar inglês e fazer muito teatro, por isso acabei por ser ator localmente e graduar-me em inglês.
E a psicologia?
Tive muitas aulas de psicologia, mas só podia me licenciar numa coisa, e derradeiramente, optei por ser argumentista/realizador. A minha mãe escreve contos e o pai dela executou as capas dos livros da Agatha Christie. Também foi ele o responsável por posters de filmes como o «Fuga de Alcatraz». Eventualmente percebi que gostava de arte, de atuar e escrever. Todas estas coisas.
A fita foi filmada em Athens, na Georgia. O guião foi escrito com esse local em mente?
Eu sou de Athens, por isso imediatamente pensei que queria filmar lá. No livro a acção decorre na zona de Oklahoma, mas podia muito bem ser em Athens. Já os produtores queriam filmar no Louisiana, na zona de Baton Rouge – que é uma região que conheço e gosto. Porém, quando tive com eles disse: “vamos falar da Geórgia”. Claro que conseguia neste local muita coisa de borla.Tenho conhecimentos lá. É uma cidade muito artística.
E quanto tempo duraram as filmagens?
25 dias
Vê-se a continuar a escrever/realizar filmes sobre jovens adultos? Está a trabalhar em algo nesse sentido?
Estou interessado em trabalhar com todas as faixas etárias e nos seus relacionamentos. Neste momento estou ligado contratualmente para escrever e realizar a adaptação ao cinema do livro «Pure». É um mundo louco e fascinante, podendo ser descrito como «um misto de “A Sombra do Caçador” (1955) e ”O Labirinto de Fauno” (2006)». É a emocionante história de dois irmãos em busca da mãe, mas também um filme sobre classes sociais e economia. É uma parábola fantástica sobre a adolescência e de aprendizagem em aceitar e amar.

