Formalmente, não podia ser mais diferente “Planète B”, de Aude Lea Rapin, da sua primeira experiência na realização, “Les héros ne meurent jamais”. De uma narrativa dramática em que a história recente da Bósnia cruzava-se com o dia a dia da juventude parisiense, a cineasta passou para um filme de ficção científica distópico onde o ecoterrorismo se tornou prática do dia a dia de muitos, num Planeta que morre aos poucos envenenado com os crimes ambientais perpetrados.
É num desses grupos ativistas que encontramos Júlia, interpretada por Adèle Exarchopoulos, que após uma confrontação com as forças da lei, após alguns atos de destruição, vê-se desaparecida do “mundo”. É por pouco tempo, esse desaparecimento, já que rapidamente somos situados onde ela agora se encontra, um mundo virtual, o tal “Planèta B”, onde na forma de avatar ela e outros ativistas foram encerrados e são torturados psicologicamente até que denunciem toda a célula ecologista de Grenoble que anda a espalhar o caos. O destino de Julia e Nour, uma jornalista de investigação iraquiana forçada a viver sob uma identidade falsa na França, vai-se cruzar quando a personagem interpretada por Souheila Yacoub tropeça num dispositivo digital que lhe permite visitar a prisão virtual onde os ecoativistas estão retidos.

Fortemente influenciado por fábulas distópicas que proliferaram no cinema nipónico na forma de animé, mas também no cinema ocidental com alertas de apocalipse e devastação generalizada, não apenas na estética, mas na construção de personagens, Aude Lea Rapin entrega ao espectador um manifesto político e ecológico que avalia igualmente os limites da revolução, não apenas aquela que Julia e colegas tentam ajudar a consumar, mas também – ao colocar distorções à democracia e meter Inteligência Artificial ao barulho- à evolução do pensamento da sociedade no que concerne a tecnologia e crescimento económico não sustentável. Claro está que também é avaliada a mudança comportamental de um grupo de pessoas inicialmente unidas por uma causa, mas que começam a afastar-se e desconfiar quando pressionadas a denunciar colegas, olhando-se para essa questão não apenas sob a lente da “sobrevivência do mais forte”.
Tenso, esteticamente eficaz, embora nunca deslumbre nem inove particularmente ao separar os dois mundos a que temos acesso [o mundo real é sujo e repleto de caos, o virtual é um paraíso insular assente numa estrutura de casas que nos leva a uma Torre de Babel], “Planète B” tem na alma um exercício escapista de entretenimento imediato, mas – num segundo nível – funciona novamente como lembrança do o Homem que está a fazer ao Planeta, mas principalmente a ele próprio. E, no final, dilemas éticos, como a busca da verdade a qualquer custo (ao estilo Guantánamo)e excessos atuais do policiamento nas sociedades democráticas poluem a nossa mente, mas o que fica principalmente é um filme de cerco, entre o real e o virtual, que nos ocupa 2 horas sem se sentir a extensão.





















