A história recente da Bósnia cruza-se com o dia a dia da juventude parisiense neste “Les héros ne meurent jamais” (2019), primeira longa-metragem de Aude Léa Rapin, presente na edição 2021 do My French Film Festival, o qual funde um road movie dramático carregado de mistério através com ainda uma camada de estética mockumentary.
Tudo começa com Joaquim (Jonathan Couzinié), que é abordado numa rua de Paris por alguém que o reconhece como um soldado que morreu na Bósnia a 21 de agosto de 1983, data que é precisamente a do seu nascimento. Perturbado pela possibilidade de ser a reencarnação desse soldado, ele parte para Sarajevo com Alice (Adèle Haenel), uma amiga jornalista que conhece bem o território, já que executou uma série de reportagens sobre os fantasmas de uma guerra pela independência que provocou milhares de mortos.
Inadvertidamente ou não, no seu processo de construção cinemática, tanto Aude Léa Rapin como o seu Joachim parecem perdidos entre as ansiedades New Age de resolução dos fantasmas pessoais em torno da identidade e no seu lidar com a mortalidade, com um território verdadeiramente desconhecido marcado pela chacina e mortandade, onde a memória revela ser uma ferida mais complexa de sarar do que as marcas de guerra que ainda compõem a paisagem urbana do conflito.
Usando igualmente essa estrutura mockumentary – do filme dentro do filme – numa viagem de carrinha de Paris a Sarajevo, a realizadora embarca numa jornada realista de cariz meta, mas polvilhada de fantasia e encenação, tal a construção e orientação que Alice executa para o seu amigo chegar a uma resposta que é manifestamente impossível de ser concretizada. É que Joaquim apenas sabe a data de um óbito óbito e um nome, Zoran, que seria quase o mesmo se alguém viesse procurar em Portugal o Soldado Silva.
Terno e desenvolvido em torno da cura pessoal em confronto com uma cura coletiva, onde as marcas geracionais também se colocam frente a frente no jogo de reflexos distorcidos, “Les héros ne meurent jamais” deixa boas indicações de uma cineasta que usa um tom experimental longe do cinema convencional para nos conduzir num diário de viagem a que se juntam interpretações sólidas, mas nunca brilhantes.




















