É de uma ternura inexorável a primeira incursão nas longas-metragens de Ann Sirot e Raphaël Balboni, dupla de realizadores belgas que desde 2007 têm lançado inúmeras curtas-metragens num estilo muito próprio. 

Depois do thriller experimental “Dernière Partie” (2007), do peculiar “Fable Domestique” (2010), “Lucha Libre” (2014) e “Avec Thelma”, premiado em vários festivais e vencedor do Magritte (prémio máximo do cinema belga) de melhor curta-metragem, a dupla embarca numa história repleta de amor e relações familiares para contar a história de como um jovem casal  – que tenta a todo o custo engravidar e que se prepara para comprar um apartamento –   tem de lidar com a demência na família, neste caso de Suzanne, a mãe de Alex, um dos elementos da dupla.

Histórias sobre o Alzheimer e a evolução da doença são férteis na produção de dramas puros (O Filho da Noiva; O Pai), mas raros são tão ternurentos no sentimento de “a vida continua” como este “Une Vie Démente”, que não tem problemas em usar o humor como uma forma de amor e registar momentos de felicidade, mesmo quando as pessoas já não sejam elas mesmo, ou pelo menos a imagem que construímos delas.

Une Vie Démente” é um filme também sobre os altos e baixos das relações de jovens adultos, sobre os “parênteses” e “standbys” que as vezes temos de colocar na vida e relações para servir exclusivamente os outros, e como essas decisões nos afiguram como novas formas de felicidade e de ver uma doença. Não é à toa aquele diálogo entre Alex e Noémie, em que ambos discutem a ética de tirar uma fotografia a Suzanne, estando ela naquele estado de demência.

Com cores garridas e modernas, a contrastar com um minimalismo vindo de um design de produção cuidado, mas nunca aglutinador,  “Une Vie Démente” vem numa linha de obras modernas (o cinema de Xavier Dolan, Monia Chokri, Miranda July, etc)  sobre relações familiares peculiares entre a geração Y e Z e os pais, sempre com um sentido artístico de traço pop no seu fundo e um melodramatismo contido sem demasiadas lágrimas para secar. Um filme verdadeiramente bonito.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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