A banalidade do mal que Hannah Arendt usou para descrever os crimes nazis – o mal não como uma premeditação ou desejo, mas um ato ausente de reflexão e pensamento crítico, numa lógica puramente burocrática e procedimental – está bem explícita em “The Zone of Interest” (A Zona de Interesse), o mais recente filme de Jonathan Glazer, adaptado livremente a partir da obra literária de Martin Amis.
Primeira longa-metragem de Glazer desde “Under The Skin” (2013), “The Zone of Interest” é uma simples, mas retorcida viagem do britânico à vida do comandante do campo de Auschwitz, Rudolf Höss (Christian Friedel), que vive numa habitação bem ao lado do famoso (pelas piores razões) campo de extermínio. É se é essa vida de Höss e da esposa Hedwig (Sandra Hüller) que chega até nós, o filme serve de invólucro para toda a vida quotidiana do povo alemão enquanto um genocídio e uma guerra estão a acontecer em simultâneo.
Visualmente e sonoramente, “The Zone of Interest” é brilhante em toda a sua destreza técnica, da fotografia à montagem, passando pela banda-sonora disruptiva e imersiva de Mica Levi e o design de som de Johnnie Burn, mas é a simplicidade do guião e a atmosfera global do filme, da mais pura banalidade e felicidade do casal, que sugestivamente agonia e choca o espectador, tal qual um petardo silencioso deixado na nossa mente.
Fechados no sonho do Fuhrer e ambiciosos na ascensão na carreira, tal qual um funcionário público banal, os Höss entusiasma-se com as pequenas coisas do quotidiano, como pescar, tomar conta de um jardim/estufa, tomar banho, passear a cavalo e conversar quando se vão deitar, isto enquanto mesmo ao lado, milhares e milhares de crimes de guerra são perpetrados e os oficiais da SS discutem formas logísticas de serem mais eficientes no seu trabalho diário de extermínio em massa, como qualquer indústria ou empresa o faz para melhorar a produtividade.
E é isso que mais choca o espectador, que nunca chega verdadeiramente a entrar em Auschwitz, nem assistir graficamente ao extermínio: a tal banalidade do quotidiano, do comandar extermínios, sem uma ponta de pensamento crítico sobre o ato em si per se, mesmo que ecoem tiros vindos do campo em questão e as chaminés deste mantenham-se acesas em permanência a queimar corpos.
E com isto, Glazer faz um filme absolutamente notável, na sua agonizante forma simples de o ser.


















