Vetorizado por dialéticas da empatia, LONDON chegou a Veneza como estandarte — intimista, mas formalmente exuberante — dos veios que o Brasil almeja explorar nos ecrãs depois de uma dupla jornada pelos Óscares. Durante dois anos consecutivos, o cinema brasileiro encontrou no estrangeiro plateias dispostas a encarar as cicatrizes da ditadura a partir de organismos que se recusavam a tombar. Em 2024, Ainda Estou Aqui fez do melodrama uma anatomia da ausência, sustentada pela espantosa resistência de Fernanda Torres, e acabou oscarizado. Em 2025, O Agente Secreto entregou a Wagner Moura a missão de atravessar as veias abertas desse mesmo passado pela chave do thriller pop. Não eram apenas filmes sobre a História: eram narrativas sobre corpos obrigados a sobreviver à violência que a História deposita sobre eles.
Essa cartografia física ampliou-se. Em Roterdão, Yellow Cake imaginou uma ficção científica de insetos radioativos, cuscuz e exploração mineral na qual se tosse, a pele avermelha e a matéria humana definha. Na Berlinale, Feito Pipa aproximou-se de uma mulher idosa submetida aos abalos da demência, enquanto Nosso Segredo investigou a microfísica da exclusão que aprisiona corpos negros a uma ancestralidade tantas vezes convertida em estigma. Em Funk, a garganta de uma MC da periferia carioca transformou-se em caixa de ressonância para reivindicações femininas. Locarno, por sua vez, deu o Grande Prémio do Júri ao caloroso A Margem do Rio, suspense metafísico de suor, lama e desejo, povoado por corpos que encontram prazer fora das convenções. Veneza recebe agora outra peça dessa constelação: LONDON, poema sinestésico sobre aquilo que o Brasil ainda insiste em não ver.
Apresentado ao mapa cinéfilo internacional na Settimana Internazionale della Critica, secção autónoma e paralela ao Festival de Veneza, LONDON alcança uma dimensão universal justamente porque não transforma a diferença em exotismo. Victor Di Marco e Márcio Picoli filmam frontalmente corpos que os media — e muitas vezes as próprias artes — aprenderam a observar pela chave da excecionalidade, da pena ou da curiosidade. Aqui, porém, há também uma afirmação radicalmente brasileira de território. O ponto de partida é Porto Alegre, mas a viagem proposta não é geográfica. Zarpa-se para dentro de London.
Interpretado com resplandescência por Di Marco, que acumula a realização com Picoli, o protagonista carrega no nome a capital inglesa, embora passe a vida à procura de outro tipo de endereço: um CEP existencial onde finalmente possa aterrar. O sexo talvez seja a experiência que mais se aproxima dessa morada. O prazer oferece uma suspensão das classificações que o perseguem e permite que o rapaz exista, durante alguns instantes, sem que alguém lhe explique aquilo que ele é ou aquilo que poderá vir a ser.
É impossível que o seu nome não convoque London, London, canção composta por Caetano Veloso durante o exílio e lançada no início dos anos 1970. Há naquele passeio estrangeiro uma aceitação do acaso que encontra eco no protagonista: “I just happened to be here”. Mais adiante, sobra a vontade elementar de afirmar a própria existência: “I came around to say yes”. Victor e Picoli trabalham justamente essa possibilidade de dizer “sim” a uma vida sem mapas previamente desenhados — e, sobretudo, sem profecias, pelo menos as médicas. A liberdade de London passa pelo direito de não conhecer antecipadamente o seu destino.
Se Victor oferece ao filme um corpo em permanente combustão, Carla Cassapo responde-lhe com uma interpretação igualmente torrencial. Helena entra no sistema solar exausto do protagonista como um astro-rei, oferecendo-lhe talvez o mais antigo analgésico produzido pela humanidade: carinho. Entre canções de karaoke, massagens e uma disposição quase indomável para viver, essa valquíria de cabelos prateados torna-se uma das presenças decisivas da sua travessia. Representa também outra geração, talvez mais sábia, capaz de lhe ensinar que sobreviver pode significar desobedecer àquilo que os outros projetam sobre nós.
Alinhado com a estética queer, LONDON estrutura-se menos como manifesto do que como experiência sensorial. A sinestesia nasce sobretudo da fotografia de Bruno Polidoro, cuja condução dos enquadramentos recusa a assepsia visual dos produtos moldados para algoritmos. Isso torna-se particularmente evidente na casa de fetiches onde London ganha a vida com performances eróticas. O espaço poderia facilmente ter sido convertido numa sucursal do inferno noturno de Irreversível (2002), de Gaspar Noé, ou num parente do cabaré impregnado de decadência de L’Apollonide (2011), de Bertrand Bonello. Não é.
A direção de arte de Valeria Verba prefere o detalhe ao espalhafato e converte aquele ambiente numa zona de descobertas. Ali, o toque consentido tem o poder de reabrir caixas de Pandora lacradas pelo moralismo. O sexo deixa de funcionar como espetáculo de transgressão para ser uma forma de comunicação. Will Domingo percebe isso na montagem e encontra uma pulsação especialmente precisa entre o bate-estaca noturno e os pequenos gestos que compõem a rotina do protagonista. O contraste impede que a casa seja reduzida a uma atração excêntrica e faz dela apenas mais um lugar possível da vida.
É fora dali que a existência começa a apertar. Identificado socialmente como pessoa com deficiência, London entra numa zona de tormenta quando um exame promete explicar a origem da sua condição e antecipar aquilo que poderá acontecer com o seu corpo. A questão que emerge é brutal justamente pela sua simplicidade: quanto poder deve ter um diagnóstico sobre o futuro de alguém? A medicina oferece conhecimento, mas esse saber pode também transformar-se numa sentença quando converte probabilidades em horizonte.
Di Marco e Picoli poderiam facilmente transformar essa matéria num tribunal. Recusam-no. Não há autocomiseração, dedos apontados ou aquela didática que transforma personagens em porta-vozes de uma tese. A narrativa febril deles prefere observar pessoas que riem, desejam, sofrem, cantam, trabalham e procuram companhia. Cada uma transporta uma dor, mas nenhuma é reduzida a ela. É dessa soma de imperfeições que nasce a vontade de permanecer naquele universo.


















