Tributo a Carlão Reichenbach e o seu “Falsa Loura”no Rio

(Fotos: Divulgação)

Enciclopédia viva, capaz de gravitar de um debate sobre as dimensões cristãs no neorrealismo de Roberto Rossellini a uma defesa apaixonada de George Clooney em Syriana (2005), Carlos Oscar Reichenbach Filho (1945-2012) completaria 80 anos em 14 de junho, num aniversário que – apesar da sua ausência – não vai passar despercebido pelo cinema brasileiro.

Esta sexta, às 23h59, a sessão Filmes da Meia-Noite do cine Estação NET Botafogo presta tributo ao realizador com a projeção da sua última longa-metragem, Falsa Loura, de 2007. Ao longo da sua carreira, Carlão (como era apelidado, pela sua altura e pela sua generosidade gigante) realizou 22 produções, a começar por “Esta Rua Tão Augusta(1966). Toda a sua obra foi pautada por um instinto de invenção das narrativas de ficção e por um interesse por contrastes socioculturais. Alcançou sucesso de bilheteria (com A Ilha dos Prazeres Proibidos) e consagração entre críticos e teóricos de universidades, em especial com Filme Demência(Prémio Inovação no Festival de Roterdão de 1987) e Alma Corsária(Prémio Trentennale no Festival de Pesaro).  

Exponho as minhas entranhas quando filmo por só assim, de dentro para fora, empresto ao cinema meios de combater o fascismo que nos assombra”, disse Reichenbach, um gaúcho radicado em São Paulo, em conversa com o C7nema realizada no Rio, na estreia de Falsa Loura.

“Falsa Loura” terá sessão no Estação NET Botafogo às 23h59 (3h59 de Lisboa) desta sexta (25.4)

Dono de uma poética audiovisual reverenciada, o cineasta classificava a sua filmografia entre longas metragens femininas — como Lilian M – Relatório Confidencial, Garotas do ABC — e masculinas — caso de Extremos do Prazer e Dois Córregos, com o qual concorreu em Leopardo de Locarno, em 1999. Reichenbach atacava a opressão imposta por agentes do Poder na política, manifesto na forma de submissões financeiras e de violência sexual. Ambos os temas guiam o argumento de Falsa Loura, que estreou no Festival de Brasília.

No filme, a tal loura, Silmara (Rosanne Mulholland), é uma operária que sustenta o pai, Antero, um presidiário recém-saído do cárcere (interpretado por João Bourbonnais) por quem ela zela muito, temendo que um dia ele possa voltar ao mundo do crime. Ela trabalha numa fábrica de couro com um grupo de amigas: a faladeira Milena (Suzana Alves), a tímida Briducha (Djin Sganzerla, coroada com o troféu Candango de Melhor Atuação Secundária por seu desempenho), a recatada Luíza (Vanessa Prieto) e a esperançosa Valquiria (Priscila Dias). Elas vivem uma série de conflitos em meio à falta de perspetivas das vidas que levam. A rotina de Silmara ensaia uma mudança quando ela se envolve com o vocalista da banda Bruno e os Andrés (papel de Cauã Reymond) e com o cantor popular Luís Ronaldo (Maurício Mattar).

Silmara é a Anna Magnani da exclusão brasileira, cuja aspereza virou poesia no cinema com Nelson Pereira dos Santos, e cuja brutalidade resvala no sexismo”, disse Reichenbach ao C7. Em 2003, Reichenbach sofreu uma paragem cardíaca que debilitou a sua saúde. Pai de Eleonor, Carlos Leonel e Luiz Ronaldo, o realizador deixou um argumento inacabado, cujo título é O Anjo Desarticulado. O seu legado criativo inclui ainda os sites “Olhos Livres” e “Reduto do Comodoro”, onde filosofava sobre arte e o prazer da cinefilia.

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