Depois de se estrear em Roterdão com “Sons of Denmark” (2019), onde se centrava num futuro na Dinamarca onde a radicalização e tensões étnicas assumem a pole position dos dramas sociais, Ulaa Salim leva-nos a outras catástrofes, naturais e pessoais, para falar sobre o quotidiano e das decisões que tomamos que nos alteram a vida para sempre.

Filmado na Islândia, o filme arranca com o desmoronamento de um penhasco, enquanto paralelamente assistimos ao apaixonante conhecimento mútuo de um casal de jovens, Anita (Nanna Øland Fabricius) e Elias (Simon Sears), forçado a tomar decisões basilares quanto ao seu futuro. Anos passam e percebemos que o espectro do fim do mundo está aí devido a uma falha no fundo do oceano, altura onde o nosso protagonista, envolvido numa missão num submarino de salvar o futuro, começa a olhar para o presente e passado, questionando existencialmente tudo, após uma tragédia numa missão.

É invariável não pensar em “Solaris” e objetos mais recentes como “High Life”, “Ad Astra” e até “Interstellar”, numa variante “e se”, onde um evento catastrófico e misterioso – que pode ditar o fim dos tempos – serve de impulso para refletir sobre mundo à nossa volta e a nossa construção pessoal nele. 

Estruturado em 3 tomos (“Eternamente jovem”, “O núcleo” e “Eterno”), Ulaa Salim constrói um novelo dramático que efetivamente relega o cinema-catástrofe para um segundo plano, usando apenas a tragédia natural como desculpa para falar de outras coisas. E nessa jornada, nunca se aventura muito para o terreno das explicações científicas, evitando tropeços narrativos e qualquer implausibilidade, permanecendo preferencialmente dentro do registo metafísico, ainda que longe das lengalengas de pacotilha pseudointelectuais.

O resultado é um filme longe de qualquer espetacularidade na viagem por paradoxos temporais e calamidades terrenas, um pequeno conto de introspeção pessoal capaz de prender o espectador até ao fim.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
eternal-e-seFilme longe de qualquer espetacularidade na viagem por paradoxos temporais e calamidades terrenas, um pequeno conto de introspeção pessoal capaz de prender o espectador até ao fim.