Há algo de deliciosamente anacrónico em Minha Melhor Amiga, e talvez seja justamente daí que venha a sua maior força. Susana Garcia filma Ingrid Há algo de deliciosamente anacrónico em Minha Melhor Amiga, e talvez seja justamente daí que venha a sua maior força. Susana Garcia filma Ingrid Guimarães e Mónica Martelli como se ainda estivéssemos numa noite de segunda-feira dos anos 1990, diante de um daqueles espetáculos de comédia programados pela Tela Quente (sessão de cinema mais popular da TV Globo), quando duas estrelas bastavam para transformar equívocos, quedas, namoros e desventuras turísticas numa festa de duas horas. É um cinema de riso largo, irrefreável, pouco preocupado em parecer sofisticado, cuja eficácia nasce menos das piadas escritas do que do gestual das suas protagonistas. Ingrid e Mónica funcionam como uma dupla de olhares, interrupções, espantos e cumplicidades, numa linhagem que faz pensar na química explosiva de Bette Midler e Shelley Long em Outrageous Fortune (1987). Quando uma dispara, a outra reage. Quando uma exagera, a outra devolve no mesmo diapasão. É Jane Fonda a brincar com Lily Tomlin. É nessa circulação física de uma graça com raízes genealógicas lá em Buster Keaton que a fita encontra o seu verdadeiro argumento. É um fado da aliança… uma celebração da lealdade a todo o custo, como se espera de um buddy movie, seja na sua vertente mais política (como C’Eravamo Tanto Amati, de Ettore Scola) ou na sua desinência mais pop (tipo Superbad). Foi outro duo (com nome de trinca), Trinity (Bud Spencer e Terence Hill), que mais e melhor lapidou essa linhagem de películas sobre bromance (a paixão inerente à amizade), ao adotar como título de um dos seus maiores êxitos Chi Trova Un Amico Trova Un Tesoro (1981), mais conhecido pela tradução Quem Encontra um Amigo, Encontra um Tesouro.

O reencontro com essa espécie de comédia é particularmente oportuno. Há vários anos que o género vive um estranho claustro nas salas de cinema, deslocado em grande medida para o streaming e comprimido entre o receio industrial de arriscar numa gargalhada e uma cultura crítica cada vez mais desconfiada do excesso, da caricatura e da incorreção. O cenário começa finalmente a mudar. Em 2026, The Devil Wears Prada 2 já chegou aos 692,7 milhões de dólares mundiais, segundo o Box Office Mojo, enquanto a chanchada automobilística chinesa Pegasus 3, de Han Han, alcançou 656,5 milhões. O regresso dos Wayans em Scary Movie já produziu mais de 230 milhões. Não são acidentes isolados: são sinais de que o público voltou a procurar o prazer elementar de rir coletivamente numa sala escura.

É nesse contexto que Minha Melhor Amiga chega ao Brasil a 3 de setembro, com 125 minutos de uma dramaturgia que prefere a generosidade ao requinte. A sua fórmula está ancorada em duas atrizes que conhecem como poucas o tamanho possível desse mercado. Deixando de fora Minha Mãe É Uma Peça (2013), no qual surgiam em papéis secundários, Ingrid Guimarães e Mónica Martelli somam, como protagonistas dos seus grandes sucessos de 2010 a 2024, mais de 28 milhões de bilhetes vendidos no Brasil. São números que as colocam numa genealogia popular que passa, noutras épocas e proporções, por Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Mazzaropi, Renato Aragão e Paulo Gustavo. O que Susana Garcia compreende é que não adianta pedir a estas duas intérpretes que sejam outra coisa. O filme existe para libertá-las.

Julia, de Mónica, é uma jornalista divorciada que desistiu de acreditar no amor e sente que, profissionalmente, passou a ocupar uma zona de invisibilidade. A agente imobiliária Clara, de Ingrid, vive um casamento esgotado e uma rotina doméstica que a empurrou para uma versão de si mesma de que já não gosta. Quando as filhas Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral) seguem para um intercâmbio em Portugal, abre-se um vazio. As mães fazem aquilo que mães de comédia fazem quando precisam de reorganizar a existência: atravessam o Atlântico atrás delas. Rio de Janeiro, Lisboa e Sevilha tornam-se escalas de uma odisseia afetiva acerca de amizade, meia-idade, maternidade, desejo e direito ao improviso. A própria produção confirma que a premissa nasceu das viagens reais de Ingrid e Mónica com as respetivas filhas.

Visualmente, contudo, Minha Melhor Amiga raramente acompanha a exuberância das suas estrelas. A realização de Susana Garcia é funcional, muitas vezes excessivamente televisiva, e a fotografia de Rodrigo Monte embala Rio, Lisboa e Sevilha num tratamento mais ilustrativo do que propriamente inventivo. Falta espessura ao enquadramento. Falta uma relação mais criativa entre as personagens e essas cidades. Há cartões-postais onde poderiam existir geografias emocionais. O filme não parece interessado em encontrar uma forma visual para o deslocamento das protagonistas; prefere colocar a câmara onde Ingrid e Mónica possam fazer aquilo que sabem fazer.

Há, porém, uma exceção considerável: a direção de arte de Monica Costa, que trabalha num registo de minúcia muito superior ao acabamento plástico geral. Os espaços ajudam a dizer quem são aquelas mulheres antes mesmo de elas abrirem a boca. Há diferenças de classe, de gosto, de aspiração e de desarrumação afetiva inscritas nos interiores, nos objetos e na maneira como cada ambiente reage à passagem das personagens. O trabalho de figurinos de Verônica Julian produz eficácia semelhante, oscilando do despojamento “modo Havaianas” ao requinte de vestidos e composições mais elegantes sem transformar essas mulheres em manequins. A roupa acompanha a libertação das personagens e faz da mudança de visual uma pequena dramaturgia.

Mas existe ainda um terceiro motor, menos anunciado, para essa engrenagem: Albano Jerónimo. O ator português entra no filme com aquilo a que Hollywood chamava, antes de tudo precisar de ser desconstruído, presença de galã. Susana Garcia percebe isso e não tenta neutralizá-lo. Pelo contrário. Jerónimo é filmado como herói romântico, uma espécie de aparição que devolve ao género algo que a comédia contemporânea parecia envergonhada de assumir: a possibilidade de um homem bonito, sedutor, inteligente e disponível existir sem que a narrativa tenha imediatamente de desmontar o seu encanto.

É uma escolha mais importante do que parece. Jerónimo não entra apenas para preencher a vaga do interesse amoroso. A sua serenidade reorganiza a energia frenética do filme. Ingrid e Mónica vivem num universo de aceleração, gestos largos, réplicas e contrarréplicas; ele trabalha numa frequência oposta. Um sorriso, um silêncio, um olhar demorado ou uma pequena suspensão antes de responder passam a produzir o efeito que o argumento nem sempre consegue extrair das palavras. É aí que Minha Melhor Amiga se aproxima verdadeiramente do cinema romântico popular dos anos 1990: quando percebe que química não se escreve por inteiro. Encena-se.

Jerónimo já provou vezes suficientes, de Mistérios de Lisboa até ao colossal A Herdade, que possui densidade para papéis muito mais sombrios. Aqui, porém, a sua força está justamente na leveza. Há algo de clássico na maneira como empresta corpo ao desejo sem o ironizar, sem procurar tornar-se maior do que a comédia que o abriga. Se Mónica Martelli e Ingrid Guimarães são tempestades, ele funciona como pressão atmosférica. E essa diferença de temperatura produz alguns dos momentos mais inesperadamente ternos do filme.

Essa vontade de voltar a acreditar no romance acompanha outra recuperação, maior, que acontece nas bilheteiras internacionais. The Devil Wears Prada 2, com Meryl Streep e Anne Hathaway, está entre os dez maiores fenómenos mundiais de 2026, com cerca de 692,7 milhões de dólares. À sua frente encontram-se superproduções como Spider-Man: Brand New Day, The Odyssey, Toy Story 5, Michael e The Super Mario Galaxy Movie, todas acima da barreira do bilião de dólares, exceto quando consideradas oscilações momentâneas de contabilização. Num ranking dominado por propriedades intelectuais gigantescas, uma comédia sustentada por estrelas adultas ocupar o sexto posto mundial é um dado industrial relevante.

Há mais. Scary Movie, novamente associado ao clã Wayans, soma 230,3 milhões de dólares, enquanto The Invite, de Olivia Wilde, adaptado da peça Els Veïns de Dalt, de Cesc Gay, contabiliza pouco mais de 51 milhões à escala mundial. São filmes de escalas diferentes, mas unidos pela vontade de devolver a centralidade ao ator, à situação, ao embaraço e ao corpo. Até The Naked Gun, em 2025, com Liam Neeson a herdar o espírito absurdo de Leslie Nielsen, conseguiu 102,1 milhões de dólares mundiais. Talvez não estejamos diante de uma nova idade de ouro da comédia, mas já existem sinais suficientes para diagnosticar uma fuga do claustro.

No Brasil, esse confinamento foi particularmente doloroso porque a gargalhada sempre esteve no ADN da relação entre cinema e multidão. Da chanchada à neochanchada, o género sustentou ciclos inteiros da produção nacional. Se Eu Fosse Você abriu em 2006 uma nova avenida industrial, seguida por fenómenos como De Pernas Pro Ar, Até Que a Sorte Nos Separe e, sobretudo, Minha Mãe É Uma Peça. Paulo Gustavo transformou Dona Hermínia numa personagem de dimensão histórica: a terceira aventura ultrapassou 11 milhões de espectadores, demonstrando que uma comédia brasileira podia enfrentar qualquer série estrangeira em igualdade de condições.

A pandemia interrompeu esse fluxo. O streaming absorveu parte do público, parte das estrelas e parte das fórmulas que faziam multidões sair de casa. Adam Sandler é o exemplo internacional mais emblemático dessa migração: depois de construir durante décadas uma das marcas mais rentáveis da comédia de Hollywood, encontrou na Netflix uma casa capaz de transformar Murder Mystery, Hubie Halloween e Happy Gilmore 2 em acontecimentos sem precisar da bilheteira. No Brasil, Roberto Santucci e Leandro Hassum encontraram um caminho parecido com projetos como Just Another Christmas. A comédia não desapareceu. Mudou de endereço.

É precisamente esse endereço que Minha Melhor Amiga tenta reconquistar. E fá-lo com garra. Susana Garcia não inventa uma nova sintaxe para o género, nem parece interessada nisso. O seu filme é uma espécie de contra-ataque industrial através da nostalgia formal: duas estrelas, uma viagem, romances, conflitos familiares, figurinos vistosos, cartões-postais europeus, equívocos e reconciliações. Há qualquer coisa de Tela Quente dos anos 1990 nessa disposição para agradar sem pedir desculpa por isso. E, num momento em que tantas comédias parecem chegar já constrangidas pela necessidade de justificarem cada caricatura, talvez a falta de cerimónia seja uma qualidade.

As melhores piadas nem sequer estão propriamente no texto. Estão no modo como Ingrid olha para Mónica depois de uma frase absurda; na demora de Mónica antes de perceber uma situação; na colisão dos corpos das duas com os espaços; na convicção absoluta com que transformam pequenos embaraços em catástrofes. É cinema de estrela no sentido mais antigo da expressão. Elas não interpretam apenas as personagens: emprestam-lhes um histórico de afeto público. O espectador chega à sala conhecendo aqueles rostos e aquilo que representam. Por isso, apesar do acabamento visual irregular, Minha Melhor Amiga possui uma energia que falta a boa parte da comédia recente: acredita que rir em conjunto ainda é um acontecimento cinematográfico.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
minha-melhor-amiga-o-imperio-do-riso-contra-ataca Susana Garcia não inventa uma nova sintaxe para o género, nem parece interessada nisso. O seu filme é uma espécie de contra-ataque industrial através da nostalgia formal: duas estrelas, uma viagem, romances, conflitos familiares, figurinos vistosos, cartões-postais europeus, equívocos e reconciliações.