O franco-germânico Dominik Moll (“Lemming” e “O Monge”) parece ter ganho o gosto por histórias policiais, e depois do conseguido “A Noite do dia 12”, onde a partir do livro de não ficção de Pauline Guén olhava para o caso real da investigação a um homicídio, e derivava para o impacto pessoal que o crime tem em que o investiga, o cineasta segue novamente pelos alicerces dos procedimentos de investigação, focando-se agora na brutalidade policial durante os protestos dos coletes amarelos de 2018. 

Ainda que não seja particularmente inspirado em ninguém em particular, os casos de pessoas atingidas por flash balls/ balas de borracha, armas de defesa não letal, que apresentam sequelas para toda a vida (como o recente adepto do Sporting que perdeu uma vista nos festejos do bicampeonato) lançaram uma discussão sobre a sua utilização. Porém, esse não é o foco de Moll, já que, além da estrutura investigativa do caso, mostra uma grande atenção não apenas pelas personagem da agente da polícia francesa, Stéphanie, interpretada por Léa Drucker, que trabalha para IGPN, a Inspeção Geral da Polícia Nacional (Inspection Générale de la Police Nationale), mas de uma França em turbilhão político, social e económico. 

Antiga agente dos narcóticos, transformada em “polícia dos polícias”, Stephanie vive entre dilemas, ambiguidades pessoais e certezas que se tornam absolutas: ela e os colegas do IGPN não são particularmente figuras confiáveis por parte da população, que entende que esta mulher é apenas uma capa para proteger a própria polícia (nunca nenhum policia foi demitido por violência policial); nem tão pouco é vista com bons olhos pelos colegas da lei, que olham para ela como alguém numa missão de traição. É isso mesmo que a nova namorada do ex-marido, Jérémy (Stanislas Merhar), também ele um agente policial, lhe diz, palavras que não têm praticamente impacto como aquelas que o filho lhe transmite. “Ninguém gosta da polícia”, diz o catraio, dando sinais de mentir sobre a profissão dos pais perante os amigos da escola, pois esta é vista com desconfiança e descrença.

Nascida e crescida na mesma localidade onde o rapaz atingido pelo projétil e a sua família vivem, Saint-Dizier, em Haute-Marne, Stéphanie parece ter alguma empatia particular pelo caso, mas essa “empatia” choca igualmente com o facto de investigar colegas, restando-lhe ser pragmática na investigação e na busca da justiça, sem ser apelidada de tender o caso para qualquer favoritismo pessoal. Nessa busca pela justiça, ou simplesmente fazer bem o seu trabalho, esta mulher vai tropeçar em múltiplas mentiras no relato do caso por parte dos agentes acusados de brutalidade, vasculhando por provas conclusivas para fazer justiça. Agiram os policiais em conformidade com a lei, defendendo-se de um eventual ataque de manifestantes, ou ultrapassaram os limites permitidos e tiveram uma atitude autoritária e desproporcional perante a situação em que se viram envolvidos?

Dominik Moll não facilita a tarefa de Stephanie e do espectador, tocando levemente num tema que já existia em “A noite do 12”, ou seja, a de um agente da lei que procura resolver um caso, porque esse é o seu trabalho. Tentando resolver o dossier sem quebrar o elo com a lei, mas não se rendendo a protocolos e burocracias que entopem o sistema de não resoluções, Lea Drucker surgiu no Festival de Cannes em dois filmes com bastantes conexões: as suas personagens mostram uma resiliência implacável de alguém que só quer fazer o seu trabalho bem, ainda que paire no ar a desesperança perante o sistema. E fá-lo como polícia neste “Dossier 137” e como enfermeira chefe em ”L’intéret d’Adam”.

Aqui, o resultado final é um thriller eficaz que lança inúmeras questões enquanto nos leva por entre investigações, uma delas criminal, a outra pessoal, de estudo de uma personagem, e outra ainda em torno do espírito de uma nação em ebulição pelas disparidades entre Paris e o resto de França.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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