Uma festa de reencontro de antigos estudantes envolvendo alienígenas veganos, cultos da morte e portais dimensionais soa como um corpo estranho no tipo de dramaturgia habitualmente praticado pelo cinema latino-americano, mesmo no território da comédia, onde o desafio à lógica já inspirou tramas sobre trocas de corpos — como Se Eu Fosse Você — ou intervenções de fadas-madrinhas na Terra, caso de Mallandro, O Errado Que Deu Certo e É Fada!. É precisamente através da originalidade e da celebração da cultura pop que Cansei de Ser Nerd se apresenta como candidato a fenómeno popular, com ambição suficiente para levar a produção audiovisual brasileira a um território de fantasia até aqui quase monopolizado por Hollywood. O principal aliado desta comédia sci-fi com apontamentos de suspense, realizada por Gualter Pupo, é o carisma de um verdadeiro motor de humor: Fernando Caruso, figura bastante ativa nas redes sociais na defesa da leitura de bandas desenhadas.
Com enorme sucesso no teatro e na televisão brasileiros, Caruso estreia-se aqui como protagonista, interpretando Aírton, um daqueles falhados que só não perdeu ainda mais na vida porque o tempo não chegou para isso. Antes da estreia comercial nos multiplexes do Brasil, a saga deste “Big Bang Theory sul-americano” circulou pelo estrangeiro e teve a sua estreia internacional na 51.ª edição do Boston Science Fiction Film Festival, considerado o mais antigo e cultuado festival de cinema sci-fi das Américas. Foi aí que a transformação “super-heróica” de Caruso recebeu os primeiros aplausos.
No peito do Superman bate um coração escondido atrás de óculos. Já no peito de Aírton — uma espécie de Clark Kent tropical vivido por Caruso em Cansei de Ser Nerd — as diástoles e sístoles aceleram ao ritmo da Liga da Justiça inteira. Dela e de todos os outros vigilantes mascarados que funcionavam como antídoto para a solidão de um estudante cheio de vontade de potência, acusado injustamente, na juventude, pelo desaparecimento e suposto assassínio de uma colega.
Apesar do seu ar à Charlie Brown, Aírton chegou mesmo a ser preso por um crime que nem Lex Luthor lhe conseguiria ensinar a cometer. Porém, no enredo filmado por um dos mais respeitados diretores de arte do cinema brasileiro — Gualter Pupo, aqui estreante na realização —, Aírton procura agora recuperar o controlo da própria vida e enfrentar os seus fantasmas olhos nos olhos.
Enquadrado pelo “Shazam” luminoso criado por Gustavo Hadba na direcção de fotografia, Aírton dirige-se a uma festa de reencontro de antigos colegas e é aí que o perigo lhe sorri pela primeira vez. Renato Fagundes, Thaisa Damous e Luiz Noronha assinam o argumento ao lado de Gualter Pupo.
“O filme do Gualter coloca, pela primeira vez, esse tipo de personagem no grande ecrã como protagonista, e não apenas como o amigo engraçado do protagonista”, diz Fernando Caruso ao C7nema. “Isso traz uma representatividade enorme para muitas pessoas. Trabalhar com humor ajuda-me a criar piadas específicas para o universo nerd, como só alguém profundamente dedicado à comédia conseguiria fazer. Pode parecer simples à primeira vista, mas exige uma complexidade cerebral tão avançada que pode levar ao óbito os incautos com mentes menos treinadas que tentem fazer o mesmo.”
Coroado com o Kikito de Gramado pela conceção artística de Bufo & Spallanzani, Gualter desenhou a identidade estética de Cansei de Ser Nerd em parceria com Marcus Wagner, criador da festa Baile do Sarongue. A direção artística, exuberante logo na conceção dos cenários e nas filmagens em locações no bairro carioca de Santa Teresa, é assinada por Fernanda Teixeira, ganhando uma camada extra de exuberância sensorial através dos figurinos de Roberta Pupo. A banda sonora fica a cargo de Berna Ceppas, outro nome de peso.
“O trabalho do Gualter e de toda a equipa fascinou-me muito pela sua dimensão de guerrilha, essa capacidade de fazer cinema no Brasil encontrando soluções criativas e económicas para tirar uma ideia maluca do papel e materializá-la no ecrã”, afirma Caruso. “É verdadeiramente inspirador.”

