Toda a tristeza que circunda o vazio deixado pela partida brusca de Eduardo Coutinho (1933-2014), o realizador de marcos como “Edifício Master” (2002), vai ser esculpida na forma de uma das técnicas que o cineasta mais estimava, a conversa, na parte dois de um simpósio que virou romaria na internet: o Na Real_Virtual.
Idealizado como instância reflexiva para as estéticas e éticas da arte de documentar praticada no Brasil, o seminário, concebido sob a fina curadoria do realizador Bebeto Abrantes e do crítico Carlos Alberto Mattos e realizado online de julho a agosto, fechou a sua maratona de conversas consagrado como a mais relevante iniciativa de (re)oxigenação no cinema do seu país neste 2020 de pandemia. Foi um raro farol de trocas simbólicas do audiovisual brasileiro pelo menos até a realização de grandes festivais como a Mostra de São Paulo, em andamento até a próxima quarta. Nesse mesmo dia, 4 de novembro, Bebeto e Mattos recomeçam os trabalhos, com novos temas e novas vozes, a partir do endereço https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. A trupe de talentos convidados será composto por Adirley Queirós, Alberto Alvares Guarani, Ana Luiza Azevedo, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Jorge Furtado, Kiko Goifman, Lúcia Murat, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Silvio Da-Rin, Susanna Lira, Vincent Carelli e Walter Salles. E Coutinho vai ser o astrolábio a guiar a navegação investigativa da conversa inicial. O legado do documentarista por trás de “Jogo de Cena” (2007) vai ser analisada em conversas com o seu rol de colaboradores mais frequentes: Beth Formaggini, Carlos Nader, Consuelo Lins, Cristiana Grumbach, Jacques Cheuiche, o já citado João Moreira Salles, Jordana Berg, Laura Liuzzi e Valéria Ferro.
Essa conversação acaba por se tornar num polo extra de discussão sobre a herança artística de Coutinho uma vez que um dos mais prestigiados centros culturais brasileiros, o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, mantém aberta uma exposição dos seus pertences (como caderneta, máquina de escrever, cinzeiro) e imagens de Eduardo. Permanecendo em solo carioca até 21 de fevereiro, a Ocupação Eduardo Coutinho, organizada pelo próprio Carlos Alberto Mattos, revisita a trajetória do cineasta, a sua obra e o seu processo de criação. É um rico material audiovisual somado a documentos, objetos e fotografias do seu acervo pessoal e de amigos e colegas de profissão, que ajudam a conhecer e relembrar o realizador. Concebida e apresentada pelo Itaú Cultural em São Paulo, desde outubro a novembro de 2019, a mostra ganha uma nova “expografia” e uma programação de atividades paralelas.
Na entrevista a seguir, Mattos, autor do obrigatório livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, repensa o papel dele para o documentário nas Américas.
O seu livro e a Ocupação do IMS são, mais do que fruto do estudo e da análise da obra de Eduardo Coutinho, um espelho de uma convivência com ele, vista, por exemplo, na produção de um precioso livro de 2003, para o Festival de Santa Maria da Feira. Como foi esse convívio e, de que forma, deu-se a aproximação de vocês? Que legado afetivo você guarda dele?
Ao contrário do que alguns pensam, eu e Coutinho nunca fomos amigos próximos. Nunca convivemos a não ser em ocasiões profissionais, como a viagem que fizemos juntos (inclusive com este repórter) a Portugal para o lançamento do livro de 2003. Mas desde que testemunhei a sua consagração no FestRio de 1984, com “Cabra Marcado para Morrer”, vinha acompanhando o seu trabalho como crítico e pesquisador. Para o livro português fiz a mais longa entrevista até então concedida por ele, com duração de seis horas. Na virada do ano de 2000, acompanhei as filmagens de “Babilônia 2000” como repórter; depois tive a oportunidade de participar das faixas comentadas dos DVDs de “Cabra Marcado para Morrer” e “Jogo de Cena”. Por fim, veio o convite para fazer a curadoria da Ocupação Eduardo Coutinho, que ora está em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, e a edição do livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”. As lembranças pessoais que guardo dele, nos encontros que tivemos, é de um humor fino, às vezes ácido, que só desabrochava depois de um prólogo supostamente mau humorado. Lembro-me dele também como um intelectual irónico, de perceção aguda sobre o mundo e o comportamento das pessoas.
Que cinema Eduardo Coutinho lapidou a partir da escuta e da fala?
O seu chamado Cinema de Conversa foi objeto de uma contínua depuração desde os anos 1980. Gradativamente, ele foi eliminando tudo o que não fosse a voz humana, encarnada num rosto e num torso que também se expressavam por meio de gestos, meneios etc. Com isso ele explorou as potências da fala, capazes de projetar no espectador uma avalanche de imagens mentais e emocionais. A sua escuta não era passiva, nem paternalista. Ele estava interessado no melodrama, na ficcionalidade inerente a todo relato de si. Mais que isso, como bem definiu sua fiel montadora Jordana Berg, Coutinho procurava nos seus interlocutores aquilo que poderiam lhe ensinar sobre a vida, uma vez que ele próprio teria nascido, segundo Jordana, “sem manual de instruções”.
O seu livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, mais do que uma biografia analítica, é um estudo sobre a arte do real no Brasil. O quanto do livro norteou a concpção da Ocupação no IMS-RJ e da primeira mesa do semimário Na Real_Virtual?
Eu não vejo o “Sete Faces de Eduardo Coutinho” como uma biografia, mas como uma reportagem analítica sobre sua obra. A noção de “sete faces” procura observar os diversos Coutinhos que havia nele, para além do que comumente se leva em conta, ou seja, “Cabra Marcado para Morrer” e o Cinema de Conversa. Coutinho também foi um exímio ficcionista, fez documentários de cunho social, fez televisão e, no fim das contas, afirmou-se como um dos cineastas mais experimentais do nosso tempo, com filmes como “O Fim e o Princípio”, “Jogo de Cena”, “Moscou” e o protofilme “Um Dia na Vida”. A confecção do livro, com base em “Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real”, que abordava a sua obra até 2003, coincidiu com os trabalhos de pesquisa para a Ocupação. Ao mesmo tempo que atualizei as análises até “Últimas Conversas”, pude acrescentar um tesouro de achados no acervo do diretor, hoje conservado no Instituto Moreira Salles. Foi possível também retroagir para os primeiros trabalhos dele, ainda enquanto estudava cinema no Institut des Hautes Études Cinématographiques, em Paris, no final dos anos 1950. Com isso, pude oferecer o primeiro livro sobre a obra completa do cineasta, abordando todas as suas fases e facetas. A última “face” é o Coutinho personagem de si mesmo, com as suas obsessões profissionais, as suas manias e características pessoais, que dialogam curiosamente com o seu cinema. Esse é mais um aspecto inédito em livro. A Ocupação bebeu nessa mesma inspiração de revelar os diferentes Coutinhos. Em 15 módulos, examinamos as relações dele com o teatro, a televisão, a religiosidade, a memória, a música etc. Tratamos do Coutinho escritor, ator, amante das citações e paródias. Abordamos seu método de trabalho, o uso de dispositivos nos documentários, o lugar do silêncio em sua obra. Para a sessão de abertura do seminário Na Real_Virtual, preparamos uma homenagem a ele como uma das grandes inspirações do documentário brasileiro contemporâneo. Os seus principais colaboradores históricos vão contar histórias e comentar imagens que ajudam a iluminar sua personalidade e sua trajetória.
Qual foi a maior influência de Coutinho para as gerações que hoje documentam o Brasil?
Entre outras, eu citaria duas grandes influências. Uma é a revalorização da entrevista, não mais como ferramenta para transmissão de informações, mas como cena de cinema, como conversa mirando o inesperado. Citaria também a abertura para compreender o outro em sua bidimensionalidade. Todo mundo é uma mescla de verdade e representação, sinceridade e estratégia, vida e teatro de si mesmo. Coutinho via nessas fabulações sobre a própria vida uma dimensão igualmente verdadeira de cada um. Em “Jogo de Cena” e “Moscou”, ele avançou o quanto pôde nessa linha de fronteira. Custo a imaginar onde estaria hoje, se vivo fosse.

