Fórum de debates estéticos e éticos sobre as potencialidades criativas do documentário nas Américas, o seminário Na Real_Virtual (https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2), o mais concorrido ciclo de conversas sobre não ficção na internet brasileira, vai embarcar pelas veredas do cinema indígena nesta segunda-feira. Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos, a dupla de curadores responsável pelo simpósio, convocou Alberto Álvares (o seu sobrenome por vezes é grafado sem acento), um cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, nascido na aldeia Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, para falar das suas vivências nesse registo em conversa marcado para a 19h desta segunda-feira (22h no horário português).
Professor e tradutor de Guarani radicado no Rio de Janeiro desde 2010, ele conduziu filmes como “O último sonho” (2019), exibido no Doclisboa. “Em 2020, trabalhei como a direção de fotografia do documentário em longa metragem ‘Mulheres Mbya: Território Jaraguá SP’, e na direção da curta-metragem ‘Ayvu Ypy – Origem da Língua’, na aldeia Rio Silveira SP, além de ministrar o curso de formação de cineastas indígenas no projeto Lentes Guarani, na aldeia Tekoa Ka’aguy Porã, no estado de Espírito Santo”, orgulha-se o realizador, que não estará sozinho no seu relato deste 9/11/2020.
Ao lado dele, na sala de Zoom do Na Real_Virtual, para a sabatina de Mattos e Abrantes, vai estar o antropólogo e documentarista franco-brasileiro Vincent Carelli, aclamado por longas-metragens como “Corumbiara”, ganhador do troféu Kikito de melhor filme em Gramado, em 2009. Um dos mais respeitados indigenistas do Brasil, ele é o criador do projeto Vídeo nas Aldeias, sobre o qual Álvares conversou com o c7nema
A fim de ilustrar o veio criativo dos seus convidados, o Na Real_Virtual exibe “Martírio”, filme de culto de 2016 de Carelli, correalizado por Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho, e “Guardiões da Memória” (2018), no qual Álvares percorre cinco aldeias guaranis do estado do Rio de Janeiro ouvindo xeramoins e xejaryis (os mais velhos e as mais velhas). “Alberto, cineasta da etnia Guarani Nhandewa, não foi formado pela Vídeo nas Aldeias. Daí a particularidade do seu caso, bastante autónomo e independente”, diz Carlos Alberto Mattos.
“A sua filmografia destaca-se pelo estilo clássico, sereno, e pela atenção dada à transmissão oral na cultura guarani. A maioria dos seus filmes se volta para a espiritualidade, os ensinamentos dos mais velhos e o pensamento dos seus companheiros sobre o estar no mundo”.
Na conversa a seguir, gravada por whatsapp com o C7nema, Álvares explica o seu estilo e sua busca.
Quais foram os maiores e mais significativos passos da luta pela expressão indígena no cinema do Brasil?
O começo de tudo é o Vídeo nas Aldeias. Eles vêm realizando vários projetos e foram um dos pioneiros no Brasil com o empenho de implantar esse cinema indígena dentro das aldeias, não em todas, mas em algumas. É importante para a gente ir buscar os nossos sonhos e seguir. Eu não passei pelo Vídeo nas Aldeias, mas fico muito feliz de ver quem passou produzindo os seus trabalhos, assim como eu. Eu consigo caminhar sozinho, mas conheço o pessoal que passou pela Vídeo nas Aldeias, produzindo os seus filmes. Eles foram uns dos pioneiros dentro do cinema indígena e é fundamental para as comunidades indígenas trazer novos olhares no cinema. Depois vêm outros parceiros: por exemplo, passei pela universidade, pelo Museu do Índio. Fui buscando meios para poder entrar nesse mundo do cinema indígena.
Que voz os indígenas têm hoje no audiovisual do Brasil e que espaço eles ocupam no cinema brasileiro?
Nós não chegamos a um padrão de disputar de igual para igual nos festivais de cinema. Quem avalia o cinema feito por indígenas possui outro olhar, não é um olhar diversificado do cinema. No Brasil, existe um cinema de elite e um cinema independente. Nós, povos indígenas, fazemos cinema independente. É por isso que, às vezes, para você entrar no circuito comercial e de festivais de cinema, você precisa ter o Certificado de Produto Brasileiro, da Ancine. Hoje, alguns festivais pedem isso e, por isso, já não entramos, por já não termos esse certificado. Nós fazemos filmes que somos preparados para fazer. Não temos ainda políticas voltadas para os cineastas indígenas, para que a gente possa difundir os nossos trabalhos dentro da sociedade.
O quanto de antropologia e de política cabe na essência desse cinema das aldeias e dos indígenas que vivem ao largo de seus locais de origem e o quanto de fábula há nessas expressões?
Hoje, o trabalho que a gente vem produzindo mostra que precisamos ocupar o espaço através do cinema, não apenas através da literatura ou das narrativas de histórias. Tudo isso faz a gente pensar em outra forma de realizar o nosso cinema indígena. Eu sou guarani, então realizo filmes guarani. Faço filmes de acordo com o tempo dos mais velhos e levando essa narrativa do meu próprio mundo, para entender essas metáforas e novas linguagens de cinema dentro do nosso mundo guarani. Acho que isso é uma forma de mostrar para a sociedade que estamos aqui. Através de filmes, nós vamos mostrando que somos para pessoas que não nos conhecem. O cinema tem esse poder de levar o conhecimento para outra sociedade, para as pessoas entenderem quem somos nós.
Quais seriam os seus novos projetos?
Estou editando dez episódios de curtas com um minuto, para o Museu do Índio. Nós, comunidade indígena do Rio, estamos contando através de dez episódios como é o nosso pensamento sobre a cura, as plantas medicinais, a saúde das mulheres, sobre esse tempo e como a gente vai se conectando através da espiritualidade. Até o final do ano vamos estar lançando esses episódios.
Tenho ainda um projeto parado, chamado “O Canto da Terra”. Nós estamos esperando passar o tempo de pandemia para rodar o filme. Outro projeto chama-se “Um Coração da Terra”. Tenho um roteiro de filme, que já filmei uns 30% e estou correndo atrás de projetos para poder terminar esse filme. O roteiro do filme passa-se entre o Brasil e o Paraguai, na fronteira, com os meus parentes.

