Inventário de brasilidades: Parte dois do seminário Na Real_Virtual a caminho

(Fotos: Divulgação)

Sob a névoa da guerra contra a Covid-19, no meio da ameaça do desmanchar dos aparelhos culturais do seu país, o cinema brasileiro encontrou no seminário Na Real_Virtual – realizado via Zoom de 20 de julho a 14 de agosto, sob a curadoria do cineasta Bebeto Abrantes e do crítico Carlos Alberto Mattos – um bunker de resistência para a troca de ideias e a reflexões acerca da prática documental nas Américas.

Medalhões das telas como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Walter Carvalho, Cao Guimarães, João Moreira Salles, Joel Pizzini, Carlos Nader, Belisário Franca, Rodrigo Siqueira, Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Gabriel Mascaro e Emílio Domingos potencializaram conversas realizadas durante um mês, às segundas, quartas e sextas, centradas em dispositivos, projetos de nação e códigos de ética. O sucesso desta maratona estética – produzida pela Imaginário Digital de Marcio Blanco – reverberou Brasil afora, abrindo pedidos de internautas para mais uma dose de colóquios. E esse pleito deu certo: a Parte Dois já está agendada – de 4 de novembro a 2 de dezembro – e com inscrições abertas, para ser realizada em https://imaginariodigital.or.br/real-virtual/2020.

O elenco de documentaristas convidados será composto por Adirley Queirós, Alberto Alvares (cineasta guarani), Ana Luiza Azevedo, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Jorge Furtado, Kiko Goifman, Lúcia Murat, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Silvio Da-Rin, Susanna Lira, Vincent Carelli e Walter Salles. Para a abertura, haverá uma sessão dedicada ao legado de Eduardo Coutinho (1933-2014), realizador de “Edifício Master” (2002) e “Jogo de Cena” (2007), com o seu rol de colaboradores mais frequentes: Beth Formaggini, Carlos Nader, Consuelo Lins, Cristiana Grumbach, Jacques Cheuiche, o já citado João Moreira Salles, Jordana Berg, Laura Liuzzi e Valéria Ferro. Na entrevista a seguir, Mattos e Abrantes avaliam o saldo inicial do Na Real_Virtual e antecipam o que está por vir.

Quais foram as maiores conquistas da primeira fase do seminário e que temas vocês descobriram ou lapidaram nas conversas?

Bebeto Abrantes: A maior conquista de todas foi termos reunido uma média de 160 pessoas por sessão para PENSAR o FAZER do documentário. Acreditamos que ninguém que tenha participado do evento saiu da empreitada com uma visão ingénua de que o documentário é um registo do Real. Através dos vários filmes e das conversas sobre as suas respectivas estratégias de construção, hoje parece-nos que se sedimentou um pouco mais a ideia de que documentário é construção de linguagem. E mais: nenhuma dessas estratégias tem o poder e o privilégio de acessar integral e privilegiadamente esse tal de Real. O Real é arredio.

Carlos Alberto Mattos: A maior conquista foi confirmar que existe um público apaixonado pelo documentário e disposto a permanecer fiel durante um mês aos nossos 12 encontros. Valeu a pena também centrar o foco das discussões nos aspectos de linguagem, estética, dispositivos e etc, sem cairmos nos assuntos de produção e mercado – que são importantes, sem dúvida, mas poderiam ficar maçantes para um público não necessariamente especializado. Com isso, pudemos descobrir as linhas de convergência que existem entre vários realizadores brasileiros, independente das diferenças às vezes fundamentais em matéria de métodos e procedimentos. 

Num placar numérico, de quantia de participantes, qual vocês estimam ter sido a plateia de vocês e como pode ela ser qualificada, ou seja, o que veio de melhor e de mais provocador nas trocas?

Bebeto Abrantes: A plateia foi surpreendente, sob todos os pontos de vista. Quanto ao numérico, por exemplo: tivemos que encerrar as inscrições quatro dias antes do previsto. Mas, o que realmente nos chamou a atenção foram duas outras coisas: a primeira, a concentração e a escuta dos participantes que passavam duas horas seguidas – “mutados” no som e na imagem – sem arredar o pé da sala virtual. A segunda decorrência dessa dinâmica – indispensável num evento online de mais de 150 pessoas – foi a intensa troca de comentários, observações e perguntas, feita pelo CHAT da sala do ZOOM. Uma comunicação circular, informal e que também produziu muito conteúdo.

Carlos Alberto Mattos: A nossa plateia girou em torno de 150 participantes. Havia tantos praticantes do documentário (realizadores, montadores, produtores) quanto estudiosos, professores, curadores e simples admiradores. O que unia a todos era o interesse por ouvir os palestrantes, colocar questões no chat e fazer as ideias circularem no espaço virtual dos encontros. O ambiente de intimidade que foi se formando ao longo do seminário surtiu um efeito inesperado, afetivo mesmo, que transcendeu a mera produção de conhecimento. 

Que Brasil parece estar desenhado nesta segunda fase? O que essa nova configuração aponta de vozes documentais na direção?


Bebeto Abrantes: 
Um Brasil que deseja resgatar a sua memória social e política (Sessão com filmes de Lucia Murat e Silvio Da-Rin); outro, que não se cala e exige uma revisão crítica radical de nosso racismo estrutural (filme de Joel Zito Auaújo); um Brasil que nos chama para olharmos e nos sentirmos como parte do continente latino-americano (Eryk Rocha); e, para não me alongar, um Brasil que sabe que, se toda dominação visa nosso corpo, a libertação também parte do corpo, como nos mostra, radicalmente, “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. São esses “brasis” que saltam aos olhos desses filmes.

Carlos Alberto Mattos: Enquanto a Parte 1 privilegiou a discussão sobre as estratégias de apreensão do real usadas pelos diretores, a Parte 2, sem deixar de focar a linguagem e os procedimentos, vai jogar luz sobre os grandes temas que atravessam o documentário brasileiro contemporâneo. Por exemplo, as questões raciais e de género, a construção da imagem indígena, a memória da ditadura, o valor de luta das mulheres, os riscos que rondam a infância e a juventude no país, a distopia brasiliense, a nossa identidade latino-americana etc. Vamos também abordar a relação do documentário com o teatro, o tratamento de personagens com características especiais e o poder do documentário diante da realidade. Enfim, um Brasil múltiplo e complexo que vem sendo “escaneado” pelos documentaristas e produzindo muito do nosso melhor cinema. 

A primeira fase aconteceu num período de cinemas fechados e festivais adiados. O cenário agora é outro. O quanto a atual mobilização do circuito e o fomento aos festivais acrescenta ao empenho de vocês em estimular a cinefilia? Que cenário temos hoje no nosso cinema?

Bebeto Abrantes: 
Muito gradativamente, e com todos os cuidados e procedimentos de segurança e prevenção sanitária no combate à pandemia, algumas salas de Cinema já começam a voltar e voltarão a abrir. Inevitável e positivo isso. Mas, o nosso entretenimento e comunicação audiovisual (via cinema, TV, celular, laptops e toda sorte de projeções) não voltará a ser exatamente o que era. A tendência da comunicação através de “lives” e encontros online há algum tempo já estava rolando. Com a pandemia, essa tendência teve uma aceleração aguda e abrupta. Mas, de qualquer modo, o escurinho da sala de cinema sobreviverá…

Carlos Alberto Mattos: A reabertura dos cinemas e espaços culturais ainda é motivo de incertezas e tacteamentos. Não sabemos até que ponto as pessoas estão dispostas a se arriscar em espaços fechados. Ainda assim, o setor cultural representa um oásis possível para quem está a viver tempos de confinamento sanitário e político. A cultura como terreno de resistência é necessária e vital. Daí que, por exemplo, o Instituto Moreira Salles decidiu abrir a Ocupação Eduardo Coutinho neste próximo sábado, com visitas agendadas e todos os cuidados de segurança. Coutinho, aliás, será homenageado na sessão de abertura do nosso seminário com uma espécie de sarau virtual, no dia 4 de novembro. Não creio que o cenário esteja muito diferente do que era em julho/agosto, quando fizemos a primeira parte do Na Real_Virtual. Os eventos online já criaram um público e uma demanda, mostrando que vieram para ficar. A Parte 2 terá 16 diretores, em vez dos 12 da Parte 1, e 20 filmes disponibilizados online, além do material de apoio que enviamos aos participantes com textos e links preciosos sobre cada documentarista. O nosso empenho é no sentido de oferecer uma oportunidade única de conhecimento e troca, alcançando quem se interessa pelo documentário brasileiro e se encontra em qualquer parte do Brasil ou mesmo do mundo. Como disse o João Moreira Salles, “A sua turma não está na sua cidade necessariamente, a sua turma está no mundo. E o virtual ajuda você a encontrar sua turma”.   

Como as conversas da fase inicial podem ser resgatadas agora? Que planos para outros objetos (livro, por exemplo) estão no escopo?

Bebeto Abrantes: 
Com a realização próxima do Na Real_Virtual: Parte 2 teremos construído o maior acervo de conteúdo audiovisual sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Serão a palavra e o pensamento de 26 destacados diretores. Isso não nos pertence. Somos autores do projeto, sim. Mas esse material nasce património cultural e, enquanto tal, precisa ser preservado e difundido. O poeta Antonio Cícero diz algo assim, em um de seus poemas: “guardar é mostrar”. E ele está certíssimo. O nosso desejo é transformar todo o conteúdo produzido no nosso Seminário em livro, série de TV e, quiçá, um filme: O DOC dos DOCs. Mas, por ora, estamos focados e empenhados em realizar o NA REAL_VIRTUAL: Parte 2.

Carlos Alberto Mattos: 
Após a realização da Parte Dois, pretendemos viabilizar a edição de um livro com o conteúdo do seminário. Temos consciência de que criamos uma marca forte, que ainda poderá dar frutos futuros.

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