A homilia libertária de Frei Betto no templo mineiro do cinema

(Fotos: Divulgação)

Pouco antes de um debate no Rio de Janeiro sobre a dimensão crítica da sua prosa literária, o escritor Frei Betto — nome literário de Carlos Alberto Libânio Christo — celebrou a quietude numa entrevista ao C7nema. “Como bom mineiro, escrevo em silêncio. Só falo de um livro quando o termino“, afirmou o autor de Tom Vermelho do Verde.

Neste domingo, a convite da 29. Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, o seu estado natal, Frei Betto vai romper com esse voto de afeição à introspecção e enfrentar uma plateia numerosa. Há 20 anos, o seu livro mais conhecido, Batismo de Sangue, foi adaptado ao cinema pelo cineasta Helvécio Ratton, o que ajuda a explicar o interesse do público cinéfilo pelo seu legado.

A literatura torna-se um ato de fé em todo o trabalho criativo. Sem fé na força e na magia da literatura não haveria alento para escrever“, declarou Frei Betto ao C7, por correio electrónico, no contexto de um ciclo no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. “Batismo de Sangue é uma obra que nunca deixou de interessar os leitores. Tem sido editada desde o seu lançamento, em 1982. Considero o livro — e o filme homónimo, realizado por Helvécio Ratton — documentos muito realistas do que foram os 21 anos de ditadura”.

Aos 81 anos, com 84 livros publicados e reconhecimento internacional pela sua intervenção intelectual, espiritual e política, Frei Betto levará a maratona cinematográfica de Tiradentes a um percurso pela literatura brasileira contemporânea. É também objeto de um documentário integrado na programação: A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam, de Evanize Sydow e Américo Freire. Na conversa, o escritor revisitará momentos decisivos da sua vida e obra, partilhando de que forma experiências pessoais — muitas vezes marcadas pela resistência e pela fé — se transformaram em literatura. Reflete ainda sobre como a memória se converte em palavra e como a palavra se transforma em imagem.

Sou escritor desde a adolescência, mas tornei-me autor graças à ditadura, quando as minhas Cartas da Prisão, publicadas pela Companhia das Letras, chegaram ao público e se tornaram um êxito editorial no Brasil e em Itália“, recorda.

A Mostra de Tiradentes decorre até 31 de Janeiro.

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