Ulrich Köhler: “Como cineasta estou corrompido, pois quero fazer os meus filmes”

(Fotos: Divulgação)

Ulrich Köhler esteve em Lisboa a participar na Kino-Monstra de Cinema de Expressão Alemã

Por regra, Köhler não gosta muito de generalizações, mas aceita e agrada-lhe a ideia de ser relacionado à chamada “Escola de Berlim“, uma tendência artística do cinema alemão contemporâneo, iniciada na metade dos anos 1990, onde se encontram nomes de cineastas como Christian Petzold, Angela Schanelec, Thomas Arslan, Christoph Hochhäusler e Maren Ade.

Com várias curtas executadas na década de 1990, Köhler estreou-se nas longas-metragens com Bungalow (2002), filme no qual ficam bem identificadas as tendências e marcas que o seu cinema terá no futuro; a ação longe dos grandes centros urbanos, frequentemente em locais anónimos; personagens desagradáveis em permanente conflito com o que os rodeia; histórias quotidianas sem viagens ao passado para estudar o que as transformou naquilo que são hoje.

Após Bungalow, chegou quatro anos depois Montag kommen die Fenster [As Janelas Chegam na Segunda-feira]. Em 2011, Schlafkrankheit (A Doença do Sono) vence o Urso de Prata em Berlim, mas foram precisos mais 7 anos para assistirmos ao seu quarto filme: In My Room [No Meu Quarto], o único trabalho do cineasta que teve estreia comercial em Portugal.

Com um novo [tele]filme no currículo – Um Ano de Voluntariado – o realizador apresentou-se em Lisboa na Kino-Mostra de Cinema de Expressão Alemã, a qual lhe dedicou uma retrospetiva. Foi entre sessões que tivemos hipótese de falar com ele, não apenas sobre os seus filmes, mas também acerca do seu famoso manifesto de 2007, no qual explicava porque não fazia filmes “políticos”. Uma conversa curta, mas repleta de interesse e com foco em alguns pontos da sua carreira, onde não faltaram palavras sobre o cinema, a arte e o mercado e indústria.

O que sente com esta restropetiva da sua carreira? Sente-se velho [risos] ?

[risos] É uma sensação estranha, mas claro que é uma boa sensação, saber que os filmes continuam a viver. E é especialmente bom porque sabes que tens filmes que fizeram apenas 5 mil, 10 mil espectadores na época. O facto de terem sobrevivido dá-lhes mais legitimidade.

O seu nome é frequentemente inserido na chamada “Escola de Berlim”. Acha bem essa catalogação ou crê que esse “título” de certa maneira restringe ou limita o seu trabalho?

É um título que em nada restringe o meu trabalho. É algo que está perto do olhar do crítico que usou essa definição, que se focou nas semelhanças e não nas diferenças entre o trabalho de várias pessoas. Em geral não gosto muito de generalizações, mas existe um grupo de pessoas que gostam de um determinado tipo de cinema. Eu acho que eles fazem filmes muito diferentes, mas têm em comum um tipo de discurso sobre cinema. Todos nós falamos uns com os outros e pedimos conselhos. No meu caso, até faço família com uma das pessoas que se inserem nessa “escola” [o realizador vive com Maren Ade). Sim, existem ligações entre essas pessoas, o que é uma boa coisa.

No seu primeiro filme, Bungalow, temos um jovem que foge do serviço militar. Li há uns tempos que a história nasceu um pouco da sua chamada para o serviço cívico na Alemanha. O Ulrich marcou presença, mas no “filme” a personagem foge disso. É uma resposta àquilo que gostava de ter feito? [risos]

Sim, frequentemente os meus filmes são uma forma de eu tomar uma decisão diferente à que tomei na vida real. Por exemplo, neste último In My Room, eu podia ser aquele tipo, se não tivesse filhos…

E também podia ser a rapariga e partir sem destino [risos]?

[risos] Sim, eu também podia ser a rapariga.

Digo isto porque claramente não gosta das convenções… É algo que pretende continuar a explorar no seu cinema?

Sim, eu vou continuar a testar como a sociedade funciona e como a podes provocar e levar a uma mudança. Não aceitar as normas que te entregam, ainda que eu seja uma pessoa de classe média que vai-se manter assim para o resto da vida. Gosto de questionar as normas desta classe.

Voltando ao seu primeiro filme, o Bungalow, encontramos lá a Trine Dyrholm “entre dois irmãos”. É curioso porque no ano passado saiu o Queen of Hearts onde desta vez ela está entre um pai e um filho. Como foi trabalhar com ela há tantos anos?

Ela é uma pessoa muito generosa e era uma atriz muito experiente na época, mesmo que fosse mais nova que eu. Ela começou a sua carreira, não sei se sabe, ao participar no concurso dinamarquês que dava acesso à Eurovisão [ficou em 3º lugar]. Ela é mesmo uma pessoa do showbiz e nós eramos uma equipa muito inexperiente.O Bungalow era algo muito diferente do que ela andava a fazer, pois vinha dos filmes Dogma 95. Nós tínhamos uma forma de trabalhar em que os atores não eram tão livres. Ela sempre foi honesta e sempre disse que não se sentia tão confortável a filmar as cenas, mas no final ficou contente.

Sabe, tenho esta impressão que quando pegamos em alguém com muita vida e energia e a forçamos a um registo mais contido, algo belo acontece. Ela entrega ao filme outro tipo de vida. Sem ela, não imagino o filme.

Um exemplo que gosto sempre de dar é o Lady Chatterley, do Pascal Ferrand. Há um ator francês chamado Hippolyte Girardot que interpreta sempre papéis de tipos muito nervosos, cocaínados, etc, e ali estava numa cadeira de rodas. Isso resultou muito bem, pois sabemos que ele quer sair dali mas não pode.

O Hippolyte Girardot, que participou no seu Sleeping Sickness….

Exatamente…

Por falar nesse filme e na sua obra em geral, gosta de personagens que nunca estão bem com aquilo que está à sua volta, descontentes por natureza e que partem sempre para algo diferente, embora não saibam bem para onde vão ou onde querem ir. Isto é algo que vem de si mesmo?

Em geral, as pessoas sabem melhor o que não querem do que o que querem. Por exemplo, tenho a certeza que a Trine, quando participou no concurso de acesso à Eurovisão, sabia o que queria. Mas muitas vezes na vida as circunstâncias são diferentes. Acho que esta ideia de um herói com um objetivo claro vem da dramaturgia e não da vida real. Acho que até o Donald Trump não sabia o que queria quando se candidatou. Ele queria vingança, mas acho que nem queria ser presidente. E agora temos lidar com ele…

Ainda bem que fala do Trump, pois em 2007 escreveu um manifesto (Porque não faço filmes “políticos”). Crê que essas ideias necessitam de uma atualização ou acha que tudo se aplica ainda hoje em dia?

Acho que hoje diria coisas similares. No manifesto, o políticos estava entre aspas e o que queria dizer é que se querem ser ativistas políticos, há melhores maneiras de o serem que escolherem a via do “arthouse“. Isto porque: ao dialogar apenas com as pessoas que já estão ao teu lado, não mudamos o mundo ao fazer filmes. São más desculpas e muitos maus filmes foram feitos com a desculpa de que são políticos. Esse era o ponto central do manifesto. Mas como pessoa e como artista, acho que temos sempre de estar a par das coisas no mundo.

Chegou a dizer nesse manifesto que ao ter intenções artísticas, didáticas e comerciais [em conflito], A Lista de Schindler acabou por ser “pornografia histórica”. Se disse isso desse filme, o que diria do “American Sniper”?

Ainda não o vi. Vi muitos filmes do Clint Eastwood e gostei da maioria, mas esse não vi. Acho que tive medo de ver [risos]

[risos] Se calhar fazia um segundo manifesto [risos]

[risos] Sim, politicamente o Clint Eastwood é alguém complicado.

Fez 4 filmes em 16 anos, mas dois nos últimos 2 anos (No meu quarto e Um Ano de Voluntariado). É mais fácil hoje em dia fazer filmes?

Foi muito difícil fazer os meus projetos. Eu achava que em 2011, depois de ganhar o Urso de Prata com o Sleeping Sickness (A Doença do Sono), seria mais fácil, mas levou seis anos a conseguir executar um novo projeto.

Este Das freiwillige Jahr (Um Ano de Voluntariado), que fiz logo após a estreia do No Meu Quarto, estava na realidade “morto”, mas ressurgiu quando uma televisão disse que o podíamos fazer como um telefilme de baixo-orçamento. Foi mesmo uma obra do acaso e temo que será preciso mais um par de anos até surgir um novo filme meu.

Com estas novas plataformas de streaming, não acha que isso o pode ajudar?

Eles não compraram o No Meu Quarto e querem é grandes nomes. Mas não diria que não trabalharia com eles. Como cineasta estou corrompido, pois quero fazer os meus filmes. De certa maneira, ao ter aceite fazer um telefilme já foi uma maneira de comprometer-me.

Ainda se sente um “outsider”?

Ao sistema? Completamente. Por exemplo, existe esta espécie de Óscares germânicos, os Lola, e nunca fui nomeado. Nem o filme que ganhou o Urso de Prata foi nomeado. Acho que o que conta é o número de espectadores que tens.

Em 2011, falando sobre cineastas prolíficos, disse que gostava do Hong Sang-soo, mas que ele fazia o mesmo filme todos os anos….

Acabei de falar com alguém que viu quatro dos meus filmes e essa pessoa percebeu o quão próximos são uns dos outros. Na arte sempre houve pessoas muito interessantes que sempre fizeram a mesma coisa.

Fascinam-me cineastas e artistas em geral que se reinventam constantemente. Por exemplo, é isso que acho fascinante no Lars Von Trier. Mesmo que não goste de muitos dos seus trabalhos, ele está sempre a mudar.

Mas gosto (dessa repetição também), no caso do Hong Sang-soo ou do Eric Rohmer, que também era muito repetitivo.

Tem um novo projeto?

Sim, estou a começar a escrever um guião. Lentamente… Eu tenho família e roubei muito tempo a uma cineasta muito talentosa [Maren Ade, a esposa] nos últimos anos. Ela precisa agora de tempo para o seu próximo filme, por isso agora sou eu que vou abrandar o ritmo…

No outro dia, numa entrevista, o Alexander Sokurov, que eu sei que gosta bastante, disse que “os grandes festivais de cinema traíram a sua missão”, que é dar visibilidade ao cinema artístico, e que agora privilegiam “tudo o que tem a ver com o mercado”. O que acha disso?

Sinto que certos festivais andam demasiado preocupados em fazer mais felizes os políticos que os cinéfilos. No caso específico do Sokurov, fiquei escandalizado quando O Sol (2005), que para mim é uma obra-prima, foi exibido no último dia da Berlinale e não ganhou nada.

Talvez seja melhor dizer que isto dos festivais é como os jogos olímpicos dos filmes, o que por si só é uma contradição em relação à ideia de arte, com júris, primeiros prémios, uma hierarquia. Mas é complicado, pois sem os festivais, cineastas como eu não existiam.

Existem pelo menos dois filmes seus com músicas dos Pet Shop Boys. É um fã da banda?

Sim, sou um grande fã. Na minha juventude ouvia muito Jazz. Perdi a minha juventude pop e quando a apanhei anos mais tarde, aos 20 anos e mais, foram eles – com o álbum Very – que me fizeram entender o que a música pop era.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/z0rz

Últimas