John Travolta estreia-se na realização e no argumento com uma obra pequena, nostálgica e assumidamente íntima, não fosse o filme inspirado num episódio da sua infância. Com pouco mais de uma hora, e adaptando o livro infantil autobiográfico que o ator publicou em 1997, onde relata a primeira viagem de avião de um rapaz de oito anos, o filme sente-se como uma espécie de cápsula temporal e emocional sobre uma certa América, a que podia voar, mesmo em segunda classe, em 1962.
No filme seguimos Jeff, um menino que viaja com a mãe num vôo da TWA da Costa Leste até à Califórnia, com várias escalas, onde ela tem a promessa de ajuda para entrar em Hollywood. Travolta não está interessado em construir uma qualquer intriga clássica, mas antes produzir um diário das suas sensações, percepções e interpretações na descoberta de um mundo até aqui visto à distância. Para o pequeno rapaz, o aeroporto, a voz que anuncia os voos, os aviões, a comida de bordo, os pilotos, as hospedeiras e outros passageiros são todos relatados pela voz do próprio Travolta, que funciona como narrador/guia dos seus pensamentos na época.
Filme claramente familiar, daqueles que quase tem a aura clássica de se ver na noite de natal, Propeller One-Way Night Coach vive de um exercício de memória idealizada, onde a descoberta infantil de um mundo maior produz uma visão encantada do mundo, até mesmo quando existem sinais claros sinais que nos mostram que a visão de Jeff é muito ingénua e romantizada, como alcoolismo da mãe.
Travolta filma também a aviação desta era como um paraíso perdido, um tempo em que viajar era uma aventura. Em tudo existe muita ternura, não se questionando muito o passado passado nem sendo crítico perante ele; o ator e realizador prefere antes mostra-lo como um refúgio contra a realidade, numa espécie de terapia. Veja-se por exemplo a figura da mãe, que como atrás referimos é olhada com muito romantismo. Poderia haver algum tipo de tentação de fazer um ajuste de contas, mas a verdade é que Travolta olha para ela com o olhar de criança e essa criança relembra que foi ela que proporcionou o momento mágico que lhe marcou a infância e a vida.
Tudo isto funciona como o maior triunfo de Travolta, a simplicidade de contar o mundo pelos olhos de uma criança, mas tudo isto também mostra as limitações do seu filme.




















