Integrante do júri veneziano responsável por atribuir o Leão de Ouro a Jim Jarmusch por Father Mother Sister Brother, a atriz Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro e foi nomeada ao Óscar neste 2025 em que completa 60 anos. No dia 15 de setembro será o seu aniversário, mas a MUBI antecipa a festa da estrela de Ainda Estou Aqui (já no Globoplay) com uma retrospetiva da sua carreira na plataforma digital. Prestes a rodar Os Corretores, do realizador Andrucha Waddington (o seu companheiro), Fernanda surge no catálogo brasileiro da MUBI numa secção batizada de A Vida Presta, com quatro longas-metragens. O título de culto da seleção é Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor (1940–2022), que lhe valeu o prémio de Melhor Interpretação Feminina em Cannes, em 1986.
Na trama, um casal que se conheceu na juventude (Fernanda e Thales Pan Chacon) separa-se após dois anos. Três meses depois, decidem reencontrar-se e, ao longo de uma longa noite, mergulham numa conversa profunda sobre o amor. Entre risos, lágrimas e lembranças, revisitam os momentos mais marcantes da sua história. A delicada fotografia de Lauro Escorel dá requinte a este parlatório.
Gêmeas, que valeu à atriz o troféu Candango no Festival de Brasília de 1999, foi incluído em A Vida Presta, mas será relançado no grande ecrã em outubro, durante o Festival do Rio. O filme integra uma fase de obras nas raias do noir protagonizadas por Fernanda na segunda metade dos anos 1990, período em que fez ainda Traição (1990), um thriller em episódios já em exibição na MUBI Brasil. O quarto título, Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado, estreou em 2007, mas voltou às salas este ano. Nele, Fernanda interpreta a herdeira de uma madeireira que decide fazer um vídeo, em família, para obter recursos a fim de despoluir a sua região.

Conhecida por “Fernandinha” no seu país, em contraponto à mãe, a diva Fernanda Montenegro (a “Fernandona”), Torres integrou o júri do Festival de Veneza (encerrado a 6 de setembro) ao lado da atriz chinesa Zhao Tao, da realizadora italiana Maura Delpero e de mais três cineastas: o francês Stéphane Brizé, o romeno Cristian Mungiu e o iraniano Mohammad Rasoulof. O grupo completou-se com a participação do realizador norte-americano Alexander Payne (Nebraska), que presidiu ao grupo. No fim de semana, ao entregar a Copa Volpi a Toni Servillo pela sua interpretação em La Grazia, Torres foi bajulada pelo veterano ator italiano em palco: “Não imaginava ser premiado por uma atriz que me encantou este ano, com um grande filme“, disse Servillo, em referência a Ainda Estou Aqui.
Logo que foi nomeada ao Óscar, Fernanda conversou com o C7nema sobre a força simbólica da longa-metragem de Walter Salles para a população brasileira e para a sua arte. Além de conquistar o Globo de Ouro, a fita teve 5,8 milhões de espectadores no seu país: “Fui só alegria com o roteiro porque fiquei muito impressionada com a capacidade que (os seus autores) Murilo (Haurser) e Heitor (Lorega) tiveram para escolher, naquele livro imenso do Marcelo, um corte que salta 26 anos e depois salta mais dez. É muito difícil. O nosso trabalho foi ajustar a Eunice na passagem da primeira fase para a segunda, para que a segunda tivesse uma razão de existir. Acho que o trecho mais difícil de acertar — que foi para lá, foi para cá, teve mil retornos — foi a segunda parte, ali em São Paulo, onde ela recebe o atestado de óbito do Rubens.“
Recordista de público no teatro (com a peça A Casa dos Budas Ditosos), Fernanda também é autora best-seller e tem um dos seus livros, Fim, transformado em minissérie no Globoplay.
“Como escritora, aprendi muito com a minha experiência de atriz. Aprendi como entrar na personagem, como me deixar levar por ela, como respeitar. Às vezes, a personagem quer fazer algo, mas você acha que ela deveria fazer outra coisa. Acredito que escrevo bem diálogo. Entendi que o diálogo não pode ser uma repetição da ação. O diálogo tem de contrapor-se à ação. Mas isso é a atriz que sou a falar“, disse Fernanda ao C7nema, logo após a conquista do Globo de Ouro. “Vês se a personagem está a dizer algo que vá contribuir para a ação ou se está apenas a declarar que está triste ou para onde vai. Quando a personagem abre a boca, tem de dizer algo que te surpreenda. Nisso, o Tarantino ensina-nos muito.”

