Faroestes em fúria invadem a Mostra de São Paulo

(Fotos: Divulgação)

Definido como alegoria transcendental — e até como um Mad Max metafísico —, Sirât ganhou um rótulo de faroeste ao ser premiado no Almería Western Film Festival, realizado em Espanha de 8 a 12 deste mês. Não há duelos ao sol nem cavalgadas na longa-metragem de Oliver Laxe, apenas um espírito de desbravamento de fronteiras (no deserto) durante a busca de um pai (Sergi López) pela filha, num cenário árido atravessado por raves. Laxe inaugurou a 49.ª Mostra de São Paulo (SP) três dias depois de se consagrar na cidade espanhola que serviu de cenário a clássicos do spaghetti western dos anos 1960 e 70 — uma reprodução em moldes ibéricos da América do século XIX. Em Almería, concorreu com um dos títulos mais disputados da maratona paulistana: Almas Mortas (Dead Souls), de Alex Cox, que terá nova sessão este sábado (dia 25), no Cine Segall.

O realizador de Repo Man (1984), desaparecido dos ecrãs desde 2017, tornou-se uma referência do cinema independente anglo-saxónico após o sucesso de culto Sid & Nancy (1986). De origem inglesa e radicado em Liverpool, Cox assina a realização e protagoniza o western que agora chega às salas brasileiras, num esforço de revitalizar o género. A trama decorre em 1890, ano do censo dos Estados Unidos, e acompanha o caos provocado pela chegada de um estranho — Strindler — a uma pequena cidade do Arizona. Interpretado pelo próprio realizador, o homem, que mais tarde será conhecido como reverendo, negocia a venda de nomes de trabalhadores mexicanos mortos, numa alegoria à atual hostilidade política norte-americana para com os imigrantes. A base literária do filme é a prosa de Nikolai Gógol (1809-1852), no romance Almas Mortas, publicado em 1842.

Buda Lira em “Terra Devastada”


Almas Mortas volta a ser exibido na Mostra de São Paulo no dia 28, no Cinesesc. Antes disso, a maratona paulista recebe outro faroeste — desta vez brasileiro e oriundo do Maranhão —, Terra Devastada, de Frederico Machado. O elenco conta com Buda Lira, num dos papéis de maior destaque. Inserido numa linha de tensão psicológica, o filme decorre entre as décadas de 1960 e 1970 e acompanha a jornada de um pistoleiro, um andarilho silencioso que regressa à sua cidade natal em busca de vingança. Quando criança, assistiu ao assassinato dos pais por um poderoso latifundiário no interior do Maranhão. Agora, é chegada a hora da desforra.

O género western, aliás, parece atravessar uma nova fase de vitalidade. Este ano, mobilizou tanto Locarno como o Festival do Rio com Cara ou Coroa? (Testa o Croce?), protagonizado por John C. Reilly, que encarna Buffalo Bill — ou melhor, William Frederick Cody (1846–1917) —, caçador, condutor ferroviário e figura lendária do espetáculo itinerante de cavalaria e tiro Wild West Show.

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo prossegue até 30 de outubro, mantendo viva a tradição de cruzar fronteiras entre géneros, países e linguagens, e mostrando que o faroeste — ora físico, ora moral — continua a ser um espelho privilegiado da condição humana.

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