Nos dias que correm é cada vez mais difícil definir o que é uma família. Cada família se difere e os seus integrantes têm comportamentos distintos uns dos outros. E a família não é um lugar confortável para muita gente e pode refletir o estado do mundo. Facto é que, a meu ver, não há e nunca existiram famílias ideais, “normais”, perfeitas.

O quadro ao lado, cena de família (1891), feito pelo pintor brasileiro Almeida Júnior (1850-1899), regista a ideia de uma família da elite urbana brasileira, HARMÓNICA, e modelo da época. Pintura encomendada pelo engenheiro civil brasileiro, Adolfo Augusto Pinto, retratado com a sua esposa e filhos. Uma cena quotidiana no aconchego de um lar burguês do Brasil desta época. Num ambiente refinado, a imagem legitima a “instituição família” e o status social. Na imagem, o homem provedor da família e a sua imponência lendo o jornal; e ao fundo a sua mulher, a dona de casa, bordadeira e cuidadora dos filhos. Nesta composição é colocado em destaque o valor e a hierarquia social dos mais abastados do país. Obra inspirada em padrões de família europeia, revela os aspectos socioculturais do Brasil da segunda metade do século XIX, imitando um estilo de vida e traços identitários do Velho Continente.

O filme Família submersa (Família sumergida/A family submerged, 2018), de María Alché, por sua vez, traz a visão de uma família argentina atual, sem destacar o status social e o poder entre esposa e marido. A realizadora convida-nos a pensar no universo familiar, mais precisamente na DESARMONIA de uma família de classe média simples. A narrativa envolve intimamente a vida de uma mulher casada, moderna, de cerca 60 anos, Marcela (com a excelente atuação da atriz profissional Mercedes Morán), cujo marido é interpretado por Marcelo Subiotto, também ator profissional. Eles têm três filhos, dois adolescentes: Jimena e Nahuel; e Luísa, já adulta (imagens abaixo). Aparentemente, eles são unidos e queridos, mas sentimentalmente distantes uns dos outros e submersos em si mesmos. Curiosamente, não há no filme um plano com toda a família no mesmo quadro, o que dá a ver claramente a falta de conexão entre eles.

O mundo emocional de Marcela está em ruínas, ela vive num ambiente familiar sufocante e visualmente poluído, numa casa que mal cabe os móveis e as pessoas. Ela está rodeada de demandas dos filhos e se quer pode expurgar o momento doloroso que atravessa.

O filme inicia com Marcela na casa de Rina, a sua irmã recém falecida, mas ao espectador não é dado a saber a causa da morte. Ela sofre em silêncio sem que alguém da sua família a ampare, enquanto esvazia a casa da irmã e desfaz-se dos pertences. Evoca memórias das gerações anteriores, se “alinhando” em pensamento com os parentes que já faleceram (sua irmã, tias e avós) e igualmente com os seus fantasmas e forças ancestrais. Acede a fotos antigas e visualiza camadas de passado na tentativa de resgatar o que resta da relação e dos afetos entre os que foram e os que vivem; diálogos de outra época que se interligam e que lhe trazem autoquestionamentos. Tudo isto abala esta mulher e a sua estrutura familiar. A realizadora mistura imaginação e realidade, os mundos dos mortos e dos vivos. Entrelaçando passado e presente do núcleo familiar de Marcela.

Quando alguém morre a vida segue para os que ficam. Com Marcela não é diferente, ela é levada a prosseguir sua jornada terrena, a lidar com o luto e a realidade. O mundo torna-se estranho para ela e fragiliza-a após a morte de Rina, mas a chacoalha e transforma internamente. Ela precisa enfrentar um vazio fraternal, mas todavia sente-se ignorada e deslocada no seu próprio lar, pouco acolhida nas relações familiais com o marido e os três filhos, num ambiente doméstico rotineiro, desafinado, caótico, insosso. Marcela encontra-se em desamparo emocional, permeada de angústia e confrontos interiores e exteriores. O seu companheiro é um marido e pai ausente, aparece no início do filme e logo parte em viagem (a trabalho ou talvez com uma amante) e só retorna a casa no fim da narrativa. Reaparece leve e alegre como se não tivesse passado demasiado tempo fora, num momento em que a esposa vivia o luto pela perda da irmã. A vida em família pouco prazer dá a Marcela, ela habita uma casa sem afeto de lar.

Mas eis que surge Nacho (frame abaixo), um homem com cerca de 45 anos (Esteban Bigliardi) amigo do namorado de Luísa – filha de Marcela. Ele aparece inesperadamente na vida de Marcela e acaba se aproximando dela afetivamente. Os dois dividem momentos íntimos e agradáveis sem que a família se dê conta. Os filhos e o marido dela estão demais voltados para si próprios, para perceber qualquer coisa externa a eles mesmos. Nacho conforta e dá carinho a Marcela e ajuda-a a desfazer-se dos bens de Rina, a esvaziar o seu apartamento. Quando estão juntos, ela aparenta estar feliz. Entretanto, em família ela sente-se deslocada e em desarmonia. Com Nacho, Marcela liberta-se de sentimentos represados e redescobre-se, embora não fique claro a continuidade dos encontros entre eles. Há muitas mulheres que sacrificam os seus desejos por causa da vida em família, apagando a sua individualidade. No caso da protagonista do filme, ela via-se envolvida pelo universo sentimental familiar, até que um estranho surge na sua vida e percebe que tem outros sentimentos para além daquele de mãe cuidadora.

A banda sonora do filme, feita por Luciano Azzigotti, expressa os laços afetivos entre as personagens. Destaco a belíssima e última cena, uma festa da família de Marcela, ao som de um tango moderno todos dançam fora de compasso, conexão e sintonia entre eles e a música, assim como nas suas vidas.

A câmara de Família submersa privilegia movimentos lentos e acompanha a protagonista nos seus deslocamentos. A veterana e reconhecida diretora de fotografia francesa Hélène Louvart cria uma atmosfera imagética introspetiva com uma subtil tensão, estética próxima do mundo afetivo da protagonista.

Os enquadramentos são mais fechados, predominando a maioria dos planos em cenas internas, filmadas dentro da casa da protagonista, de Rina e onde temporariamente vive Nacho. Há poucas cenas externas e planos abertos.

Numa entrevista dada na Argentina, a realizadora disse que antes de fazer o filme havia encontrado diapositivos de família na sua casa e criou um projeto de projeção com estas imagens, buscando apreende-las como linhas do tempo e camadas de memórias; experiência que depois funcionou de certa forma como um laboratório para construir a história de Família submersa.

Filme que lembra a estética de atmosfera criada por Lucrécia Martel no filme La Ciénaga/O pântano (2001). Embora Martel tenha sido consultada na etapa do roteiro do filme de María Alché, é possível perceber questões próprias da diretora estreante em Família submersa.

O filme esteve em cartaz nas salas de cinema da Argentina e do Brasil. Foi rodado em digital e em cores, tem duração de 91 minutos e é a primeira longa-metragem com argumento e realização da argentina María Alché. Uma coprodução entre Argentina, Brasil, Alemanha e Noruega. O filme recebeu o Prémio Horizontes Latinos no Festival de San Sebástian 2018 e foi nomeado em tantos outros festivais.

María Alché (1983-), antes de escrever o argumento da sua longa-metragem e se dedicar à realização, já era atriz de Teatro, TV e Cinema, além de fotógrafa. Graduou-se em Cinema (Direcção) na Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica (ENERC) em Buenos Aires, em 2010, onde, de 2015 a 2017, foi professora de Direção de atores. Na sua carreira como atriz protagonizou La niña santa, 2004 de Lucrecia Martel, atuou na série de TV Tratame bien, 2009 de Daniel Barone e em Me casé con un boludo, 2016 de Juan Taratuto. Como argumentista e realizadora, fez as curtas-metragens Noelia, 2012 e Guliver, 2015; seleccionadas em festivais de cinema de prestígio como Locarno e Roterdão.

Além de Alché e Louvart, a equipa do filme é repleta de mulheres: Georgina Baisch, a produtora; Mariela Ripodas, a diretora de arte; Livia Serpa, a editora e Julia Huberman, a qual fez a concepção sonora.

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
familia-submersa-de-maria-alche A realizadora mistura imaginação e realidade, os mundos dos mortos e dos vivos.