Claire Denis foi às bases teatrais de Cri des Gardes para explicar os procedimentos formais do filme que a integra à competição pela Concha de Ouro de 2025. Combat de Nègre et de Chiens, peça escrita em 1979 pelo francês Bernard-Marie Koltès (1948-1989) e encenada apenas em 1982, serviu de alicerce estético para um projeto que voltou a aproximar a cineasta, hoje com 79 anos, do ator Isaach de Bankolé, de 68, com quem trabalhara em Chocolat (1988).
“Há um momento do texto de Bernard em que a luz brota em meio à sombra para anunciar a chegada de um homem que reclama o que é seu: um cadáver. A luz era uma proteção para aqueles a quem reivindicava esse direito. O maior desafio que tive ao trabalhar com Eric Gautier, o meu diretor de fotografia, foi criar essa iluminação de forma precisa”, disse Claire Denis, ao C7nema, na conferência de imprensa de Cri des Gardes, em San Sebastián, cujo júri presidiu em 2023, ano em que a catalã Jaione Camborda venceu com O Corno do Centeio.
Bernard-Marie Koltès foi apresentado pessoalmente a Denis por Bankolé no final da década de 1980, num set de filmagem na República dos Camarões, onde Chocolat foi rodado.
“A razão deste filme existir vem desse encontro com um amigo que partiu cedo e deixou uma peça na qual uma muralha é erguida tijolo a tijolo”, acrescentou a realizadora.
A transposição da escrita de Koltès para o cinema decorre nos barracões de uma obra numa zona rural da África Ocidental. Num canteiro de operários, Horn, o chefe da obra (Matt Dillon), e Cal, um jovem engenheiro (Tom Blyth), partilham alojamento atrás de uma porta dupla das instalações. Leone, a nova esposa de Horn (Mia McKenna-Bruce), junta-se a eles na noite em que um homem (Isaach de Bankolé) surge junto à cerca. O seu nome é Alboury. Como um espectro na escuridão, exige o corpo do irmão, morto nesse mesmo dia na obra. Ele assombra os dois homens durante toda a noite até que lhe entreguem o cadáver, enquanto Leone observa o desastre crescer diante dos seus olhos.
“Se eu admitir que a fita é uma metáfora da violência colonial, estarei a supor que se trata de um problema superado, que ficou no passado. Mas não é o caso. Essa violência está aí, hoje”, respondeu Denis ao C7nema.
Claire Denis já havia conquistado o Prémio da Crítica de San Sebastián, em 2018, com High Life. O festival prolonga-se até 27 de setembro.

