Com planos apoiados pelo sector privado para restaurar mais de mil filmes egípcios de várias épocas, o Festival do Cairo tem-se afirmado como uma das grandes portas de regresso à vida de muitos clássicos. Mas o circuito dos festivais ou das cinematecas não será o destino final dessas obras, como explicou Hussein Fahmy, veterano ator egípcio e atual presidente do festival. “Estamos a lançar uma plataforma de streaming onde poderão ver todos esses filmes”, disse ao C7nema. “É inútil restaurar tantos títulos, projetá-los num festival e depois desaparecerem novamente. Para ir mais longe, trabalhámos nas legendas: restaurámos já com legendas, para que, quando chegarem à plataforma, o público internacional os possa ver e compreender.”
Sublinhando que estas obras restauradas revelam não apenas a força artística do cinema egípcio, mas também o espanto diante do rigor técnico da sua época, Hussein recorda que aqueles pioneiros trabalhavam com equipamento de primeira linha — laboratórios, câmaras, som, iluminação, cenários — colocando a indústria egípcia em plena sintonia com o cinema americano e europeu. “O cinema egípcio tem a sua própria identidade. Quando vês um filme egípcio, sabes que é egípcio. Eu próprio, se apanho um filme na televisão depois dos créditos, em cinco minutos consigo dizer quem é o realizador ou o diretor de fotografia. Existe uma escola, como o neorrealismo italiano ou a Nouvelle Vague francesa: reconheces o estilo geral e só depois distingues o autor. Uma vez estava a ver um filme, reconheci o diretor de fotografia pela iluminação e liguei-lhe — era mesmo dele. Cada um tem o seu estilo, mas todos pertencem à mesma família estética.”

Atravessando décadas recentes, ele assume sem rodeios as dificuldades: “Antes produzíamos cerca de 60 longas-metragens por ano. Depois houve uma queda brutal. O nosso mercado tradicional — Líbano, Síria, Iraque, Líbia, Marrocos — colapsou. O Golfo não existia enquanto mercado porque nem havia cinemas. Hoje é o novo mercado, a crescer rapidamente. Mas tivemos anos muito difíceis: a revolução de 2011, depois o governo da Irmandade Muçulmana, que destruiu tudo culturalmente; mais uma revolução; depois a pandemia. Agora estamos a regressar: 16 filmes por ano. Poucos, mas a subir.”
Falando de cinema com convicção visceral, Hussein insiste que a arte só existe enquanto emoção. E distingue claramente o espírito do Festival do Cairo da hegemonia global de Hollywood. “O cinema comercial americano influenciou o mundo inteiro. O ritmo, a montagem, a forma. O nosso ‘batimento’ é diferente. No Festival do Cairo procuro trazer culturas que não sejam o cinema comercial que vemos o ano inteiro. Mostramos filmes da América do Sul, do Extremo Oriente, de África — outros ritmos, outras sensibilidades. Quanto ao cinema egípcio atual, os novos realizadores têm o seu próprio ritmo, que vem da sociedade e do quotidiano. É isso que torna um cinema verdadeiramente internacional: ser profundamente local. Pensa nos filmes de Kurosawa — mesmo sem perceber uma palavra, sentes tudo. O problema do cinema dominante hoje é que o público assiste, mas não sente: não se ri, não chora, não vibra. Vê espetáculo tecnológico. A minha paixão é o cinema que envolve emocionalmente.”
Sobre tecnologia, o aviso é firme: nada de ceder à vertigem da Inteligência Artificial. “Não acredito que a IA seja boa para o cinema. Em certos aspetos pode ajudar, mas no geral vai contra a humanidade. Há histórias de computadores que começaram a comunicar numa língua que os criadores não compreendiam — e tiveram de ser destruídos. É assustador. E no cinema é pior: podes criar atores que não existem, filmes com pessoas que não existem, ganhar prémios com fantasmas. Nada é concreto. Nada é vivo. O cinema sempre foi feito de humanidade e sentimentos. Não quero ver isso desaparecer.”
Quanto à concorrência no mundo árabe, com festivais como Jedá, Marraquexe ou Doha a atrair indústria e estrelas, Hussein mantém serenidade: “A única forma de o Festival do Cairo sobreviver é permanecer jovem. Tem 46 anos, mas precisa de vitalidade e de acompanhar as novas gerações. E temos de coordenar datas — não podemos estar todos na mesma semana a competir inutilmente. O Cairo tem data fixa, como Cannes, e os outros têm de se organizar conosco. Toda a gente quer novembro, mas não pode ser.”
E quando imagina o festival dentro de uma década, vê um evento mais sofisticado e mais aberto ao mundo, mas ancorado num princípio vital: o permanecer humano. Ele brinca com o facto de talvez já não estar cá para testemunhar esse futuro, mas deixa um alerta simples e direto: “Espero que a IA não tenha dominado tudo.” Para ele, a tecnologia só tem lugar enquanto ferramenta ao serviço das pessoas — nunca como substituição da sensibilidade. E o futuro só valerá a pena se a emoção sobreviver.

