Depois de uma rara dupla avalanche de aplausos — reação que nem mesmo The Boy and the Heron, de Hayao Miyazaki, provocou numa sessão de abertura —, Fatih Akin entrou no Teatro Kursaal nesta sexta-feira para falar de Geister (Ghost Song), primeiro filme exibido da programação da 74.ª edição do Festival de San Sebastián. E saiu de lá com uma receção calorosa para o seu romance sobrenatural a preto e branco, que disputa a Concha de Ouro de 2026.
“Eu venho de uma família muito religiosa e, num dado momento, troquei de credo e passei a fazer do cinema a minha fé. As salas de projeção são a minha mesquita”, disse o cineasta ao C7nema, numa conferência de imprensa pontuada por elogios à sua abordagem de linha metafísica, à maneira de Wings of Desire. “O preto e branco que uso confere um existencialismo a esta história que teria sido diferente a cores. As minhas inspirações foram animes japoneses como Suzume e Weathering With You, que são muito coloridos. São os filmes de que a geração dos meus filhos gosta e têm muita cor. Mudei para preto e branco ao longo da montagem, que durou seis meses. Mas tenho uma outra versão, muito boa, a cores.”
Ghost Song acompanha Farasha (Mariam Dawoud) e Faris (Eren M. Güvercin), dois jovens de 20 anos que se apaixonam numa festa de finalistas. Naquela mesma noite, ela morre. A separação, porém, não é definitiva: Farasha encontra uma maneira de atravessar a fronteira entre os mundos e visitar o rapaz nos seus sonhos. O pacto dura 40 noites.
“Nunca perdi a minha ligação à espiritualidade e, neste filme, vemos surgir uma outra dimensão. O cinema existe para testar as barreiras dessas dimensões”, disse Akin ao C7nema.
Aos 53 anos, o cineasta teuto-turco radicado em Hamburgo transforma em fantasia uma das suas obsessões recorrentes: as fronteiras. Desta vez, não são nacionais, étnicas ou culturais, mas aquela que separa vivos e mortos. “Os rituais são uma forma de lidar com a dor”, diz o realizador.
A premissa sobrenatural prolonga uma questão que atravessa a obra de Akin, filho de imigrantes turcos e autor de filmes que transitam entre melodrama, vingança, história, crime e fantasia. Vencedor do Urso de Ouro da Berlinale por Head-On, em 2004, ganhou o prémio de argumento em Cannes por Do Outro Lado (The Edge of Heaven) e o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa por Em Pedaços (In the Fade), em 2018.
“O desafio do cinema é encontrar o equilíbrio entre a convenção e o risco”, diz Akin. “A verdadeira ideia por detrás de Ghost Song é o fim do mundo. Existe uma atmosfera apocalíptica que nos cerca hoje, mas perder alguém é aquilo que nos faz pensar no fim.”
Em Ghost Song, porém, o realizador desloca a sua investigação para o território da morte e do desejo. O resultado, a julgar pela reação da primeira sessão do festival, encontrou rapidamente o caminho até à plateia do Kursaal.
“Sou uma pessoa solar e não me reconheço como alguém depressivo, por isso quis fazer um filme que fosse capaz de ‘curar’ pessoas, sobretudo porque hoje é fácil fazer do ódio um contágio. Nas ruas, vejo pessoas do mundo inteiro. E levo essas pessoas para os meus filmes”, diz Akin, num olhar crítico. “O que os políticos deste mundo praticam é cobiça, pois tudo o que querem é ficar no poder.”
O Festival de San Sebastián prossegue até ao dia 26.

