Após a trágica morte de Nat devido à poluição, March é consumido pela dor. Mas a sua vida quotidiana vira de cabeça para baixo quando descobre que o espírito da mulher reencarnou num aspirador. O laço entre eles reacende-se, mais forte do que nunca. Mas isso não agrada a todos, em particular à família de March que, ainda assombrada pela morte acidental de um operário na fábrica que possui, rejeita esta relação sobrenatural. Para provar o seu amor, Nat oferece-se para limpar a fábrica e provar que é um fantasma útil, mesmo que isso signifique livrar-se de algumas almas perdidas…

Esta é a base de um dos filmes mais curiosos e absurdos do Festival de Cannes, “A Useful Ghost”, que marca a estreia nas longas-metragens de Ratchapoom Boonbunchachoke, cineasta que confessou ao C7nema que mais que uma inspiração em Hollywood e nos fantasmas que vemos nesse cinema, como Casper, inspirou-se mais na ideia de fazer cinema de Manoel de Oliveira e João César Monteiro. “Quando era mais jovem e estava na escola de cinema descobri os filmes de Manoel de Oliveira e João César Monteiro. Mexeram comigo e nunca tinha experienciado nada assim”, disse-nos Ratchapoom, explicando um pouco mais o que sentiu ao descobrir os filmes dos dois cineastas: “Quando o Oliveira era vivo, muitas vezes falavam dele como o mais velho realizador do mundo no ativo. Contudo, vi o “Um Filme Falado” em Banguecoque e quando fui para casa só pensava que a forma como ele brincava com a linguagem do cinema era muito jovial, imprevista e complexa. Creio que as pessoas focam-se tanto na vertente técnica do cinema, enquanto no cinema do Oliveira e do João César Monteiro tudo era tão simples. Aí senti que conseguia fazer um filme desta forma”.
Por mais bizarra que possa parecer a história de “A Useful Ghost”, a verdade é que através de uma comédia negra com muitos elementos fantásticos à mistura, Ratchapoom fala de questões políticas, laborais, ecologia e tradição. E claro que a mais famosa lenda tailandesa, em torno do fantasma de Nang Nak, foi inspiração para uma história onde um aspirador é protagonista: “Normalmente os fantasmas no cinema têm forma humana, a pele é pálida, têm hematomas e cicatrizes. Outras vezes têm forma humana, mas são transparentes.. Na mesma medida que vemos isso tantas vezes no cinema, também ouvimos comentários que essa representação é pouco memorável ou icónica. Foi aí que comecei a usar o meu sarcasmo no volume máximo e pensei em algo absurdo, como um aspirador. Claro que inicialmente tinha medo dessa representação, e queria algo que pudesse se mover, sem levitar. Precisava de algo para que o fantasma se pudesse mover entre objetos. No desenvolvimento do guião aprofundei esse tópico e, como na Tailândia temos um enorme problema com a poluição, um aspirador encaixava perfeitamente. Depois dessa decisão tudo fluiu. Se esta fantasma está num aspirador, talvez a família seja dona de uma fábrica deles. E da fábrica passei para trabalhadores descontentes. E depois há um drama familiar inserido em torno da dona da fábrica. Tudo começou no particular e expandiu-se para a sociedade e para falar de várias coisas do meu país”.
“A Useful Ghost” está inserido na Semana da Crítica. O Festival de Cannes prossegue até dia 24 de maio.

