Um dos últimos filmes de origem estrangeira a que o alagoano Cacá Diegues assistiu numa tela grande com entusiasmo foi “The Last Duel“, do inglês Ridley Scott. Vencedor do prémio de Melhor Realização do Festival de Havana de 1994 com “Veja Esta Canção“, o cineasta brasileiro saiu do cine Estação Gávea, onde viu o thriller feudal com Jodie Comer e Matt Damon encantado com a escolha narrativa de fraturar uma “verdade” em três pontos de vista, um pouco como fez “Rashomon” (1950).

Na lógica de Cacá, o ponto focal de um filme sempre é vetorizado pela vivência e pela urgência do seu povo. O “Deus Ainda É Brasileiro“, que rodou em 2022, segue inédito, mas traduz na sua edição o “perspectivismo de ação” sobre o qual o realizador escreveu muitas vezes na sua coluna no jornal O Globo. Ou seja, a personagem central parece, para alguns, ser o Todo Poderoso (vivido pelo ator Antonio Fagundes), e, para outros, as mulheres que lhe ensinam o que é resiliência na Terra. Cabe à plateia se agarrar à SUA verdade. Por isso, num reflexo desse instinto (ou saber) da personagem, o delicado documentário “Para Vigo Me Voy!” abrace muitos Cacás e nos deixe livre para acompanhar aquele que escolhermos.

Representante da América do Sul na Cannes Classics de 2025, rodado a quatro mãos por Karen Harley e Lírio Ferreira, “Para Vigo Me Voy!” funde arquivos de épocas diversas, do início dos anos 1950 ao fim dos anos 2010, com registos de uma festa na casa de Cacá, que nasceu em 19 de maio de 1940 e morreu em 14 de fevereiro deste ano. Na celebração, aparece ao lado da sua parceira de trabalho e de 43 anos de vida, a produtora Renata Almeida Magalhães. Lá estão ainda cineastas e produtoras/es de peso para a criação de imagens no Brasil. Existe ainda um núcleo ambientado nos sets, em Alagoas, de “Deus Ainda É Brasileiro“. Logo no fluxo inicial, nesse ambiente de invenção, Cacá cai e é acudido. Essa sequência não entra como signo de fragilidade, nem como anúncio de finitude. O recorte de Karen e Lírio não e perfuma de sentidos próprios, nem impõe leituras da realidade. Bem como gostava Cacá, ele permite que cada take seja uma ilha com autonomia política (e, por isso, simbólica) numa espécie de arquipélago de reminiscências onde não se carimbou o passaporte da melancolia. A nostalgia ali é lúdica, tropical.

Damos um mergulho na obra de Cacá, com eixo em seu empenho inclusivo, preocupado especialmente em abrir voz para a cultura negra, com destaque para a parceria com Antonio Pitanga e Zezé Motta. Há ainda o antropólogo que pensava as formações da vida urbana, em “A Grande Cidade” (1966), “Um Trem Para As Estrelas” (1987) e o doído “O Melhor Amor Do Mundo” (2006). Existe também o Cacá das personagens épicas, de “Ganga Zumba” (1964) e “Quilombo” (1984), e o Cacá interessado nas artimanhas do Poder, caso de “Joanna Francesa“, de 1973. Cada um deles tem a sua hora e a sua vez em “Para Vigo Me Voy!“. Podemos ficar com qualquer um desses ou com todos. Podemos ainda optar pelo Cacá teórico, que passava à prática da luta para combater patrulhas ideológicas em prol da soberania do cinema brasileiro.

É na elegância da montagem que essa geometria livre se processa. Os créditos de montagem se atribuem a Mair Tavares, Daniel Garcia, Karen Black e Lucílio Jota. Na troca com esse grupo Karen e Lírio revisitam clássico “Bye Bye Brasil” (1980) de muitas (e doces) formas. Uma delas se dá numa projeção da obra-prima de Cacá no Vidigal, no Rio. Ali, nas reações de um público de periferia, desenha-se a poesia de um artista que fez da inclusão sua estratégia de combate ao desajuste social e inscreveu seu nome no Panteão do cinema mundial pela junção (plena) de diversos Brasis.

Cannes comoveu-se com a projeção de “Para Vigo Me Voy!”, encantado sobretudo com a colossal edição de som de Waldir Xavier.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
para-vigo-me-voy-cada-um-com-o-seu-cacaDamos um mergulho na obra de Cacá, com eixo em seu empenho inclusivo, preocupado especialmente em abrir voz para a cultura negra, com destaque para a parceria com Antonio Pitanga e Zezé Motta.