Errol Morris: “A essência do fascismo é demonizar o outro”

(Fotos: Divulgação)

Famoso pelos seus documentários sobre alguns dos temas e personagens mais marcantes da política norte-americana, como os consagrados a Robert S. McNamara (The Fog of War), Donald Rumsfeld (The Unknown Known) e Steve Bannon (American Dharma), Errol Morris levou até Veneza o seu novo filme, “Separated, no qual se debruça sobre as separações familiares verificadas ao longo das fronteiras norte-americanas sob a administração de Donald Trump e a sua doutrina de “tolerância zero” contra a imigração irregular. 

Partindo do livro do correspondente político e nacional da NBC, Jacob Soboroff, Morris combina entrevistas com funcionários que denunciaram a situação e vinhetas narrativas que traçam a situação de uma família de imigrantes, revelando que a crueldade estava no coração desta política. “A base do meu livro foi uma reportagem que fiz na fronteira em dezembro de 2018, no qual visitei as instalações e encontrei as crianças, separadas dos pais pelo governo”, disse Jacob Soboroff em Veneza, onde filme será exibido fora de competição :“Foi com os meus olhos que vi essas crianças a dormirem no chão de cimento, apenas com um cobertor, sob a supervisão de seguranças privados, contratados para o efeito. E estavam separados dos pais porque a administração Trump queria assustar os migrantes. Essa foi a base para o meu trabalho na NBC. Era uma história muito difícil de contar, pois dentro daquelas instalações não podiam entrar câmaras”. 

Relembrando as dificuldades em fazer um filme sobre o tema, Jacob afirmou que o que lhe encanta no filme do Errol é a forma como narrativamente ele conseguiu fazer a jornada de uma família: “Não existem filmagens reais dos pais e filhos a caminho dos EUA. Não existem filmagens do centro de detenção. O Errol conseguiu captar o drama, a essência de algo que só aquelas famílias viveram.”

Esperando que o seu filme “toque emocionalmente o espectador”, Errol Morris afirma que, embora deteste hiperbolizar pessoas e situações, o seu filme, na essência, é um “ensaio sobre o fascismo”. “A essência do fascismo é demonizar o outro. Olhar para um grupo de pessoas e dizer que eles são o mal. E podes fazer o que quiseres com eles sem impunidade. Aquilo que me fascina é imaginar o que estas pessoas pensam quando fazem estas coisas. Como justificam esses atos? Depois de muitas entrevistas, o que constatei é uma ausência de pensamento crítico, que é a parte mais assustadora de tudo. Ouvimos a diretora da Segurança Nacional a arranjar desculpas atrás de desculpas, mas nunca questionar a essência daquilo que estava a fazer. “Estamos a seguir a lei”, “Tolerância Zero”, etc. Ouvimos eufemismo atrás de eufemismo, mas nunca se lida com a realidade e o horror que estão a provocar nas pessoas. Isso é errado”.

Já Jacob sublinhou que apesar de “Separated” se focar muito na administração de Donald Trump, pois foi ele que decretou esta tolerância zero que levou à separação de famílias,  essa ação só foi possível por sucessivos governos, de democratas e republicanos, que colocaram um caráter punitivo, desenhado para magoar pessoas, nas suas políticas de imigração. “Bill Clinton construiu os primeiros muros anti-imigração. George W. Bush aumentou a área de ação das patrulhas da fronteira. Barack Obama deportou mais gente que qualquer presidente dos EUA. Por isso, não é surpreendente que Trump, com um estalar dos dedos, tenha separado 1500 crianças dos pais. É assim que o sistema tem sido montado. Não fazíamos a mínima ideia que Trump voltaria a concorrer à presidência em 2024, quando o Errol começou a trabalhar no filme. E a verdade é que democratas e republicanos não fizeram muito para mudar as coisas relativamente a estas famílias, mesmo depois do choque e crítica global à forma como os EUA estavam a lidar com a questão. Isto é uma questão moral e como a burocracia esmagou aquilo que toda a gente sabia que era a coisa certa a fazer”. “As pessoas que trabalham para o governo, não interessa se sob liderança de Trump ou Biden, não estão autorizadas a falar com jornalistas.”, acrescentou Errol Morris, sublinhando o facto de Jonathan White ter tido coragem de mostrar o seu comprometimento em fazer o que é correto. “Ele tomou sérios riscos em falar connosco. E tive muita sorte que jornalistas como o Jacob, mas também outros, tenham feito as suas investigações e reportagens sobre o tema”. 

Separated

O Festival de Veneza termina a 7 de setembro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/velq

Últimas