Cerca de sete dias depois de conquistar o prémio de Melhor Longa-Metragem no É Tudo Verdade, Sergio Oksman leva Una Película de Miedo (Um Filme de Medo) ao BAFICI, com exibição marcada para este sábado na Sala Leopoldo Lugones. O realizador já havia sido distinguido há uma década no mesmo festival brasileiro, com O Futebol (2015) — obra que chegou a ser indicada ao Leopardo de Ouro. Arrisca agora um desvio pouco habitual no território do documentário: aproxima-se da fábula.
Ainda que rejeite o rótulo de especialista em terror, Oksman constrói em Una Película de Miedo um jogo de espectros que dialoga abertamente com The Shining (1980), de Stanley Kubrick. A premissa acompanha um realizador e o seu filho de 12 anos — versões de si próprios — instalados num hotel abandonado em Lisboa, evocando o imaginário do clássico protagonizado por Jack Nicholson. No entanto, mais do que uma evocação formal, o cineasta procura um gesto de transcendência: “Mais do que a descrição, interessava-me que o filme não fosse memória, que não se apoiasse na saudade, mas que a ultrapassasse.”
Essa recusa em fixar o filme num território estritamente documental manifesta-se desde logo no trabalho sonoro, onde o silêncio assume um papel estruturante: “Tão importantes quanto os sons são os silêncios, que têm um peso enorme. Não gosto quando se tenta reconstruir sons de arquivo para simular o que se perdeu. Se o material não tinha som, então o verdadeiro som é o ‘não-som’ — e é esse que deve permanecer.” Ainda assim, admite um jogo deliberado com códigos do terror: “Em alguns momentos usamos sons típicos do género, quase como caricatura. Porque, se fosse um terror ‘a sério’, seria um fracasso. São apenas pequenas notas cinéfilas.”
O medo que atravessa o filme não é, portanto, literal. “Não há medo ali, nem o meu filho se assusta. O verdadeiro medo é outro, mais silencioso: o desespero perante a passagem do tempo, a perceção de que já não somos a imagem que acabámos de filmar.” Para Oksman, a imagem cinematográfica torna-se um espaço de reinvenção: “Dois anos depois, aquele rapaz de 12 anos já não existe. As imagens permitem-me atribuir qualquer história — embora a personagem tenha o nome e o corpo do meu filho, não é necessariamente ele.”
A questão da memória — ou da sua recusa — conduz inevitavelmente à ideia de saudade, ainda que o realizador hesite em nomeá-la: “Não sei se é saudade, mas sinto que aquelas imagens já carregavam o peso do meu pai e do meu avô.” O processo foi, admite, marcado por incerteza e angústia: “Houve momentos em que pensei que não conseguiria terminar o filme. O medo era: ‘Outra vez não vou ter filme.’ Não era só a frustração do cineasta, mas também a responsabilidade perante o meu filho, enquanto sujeito filmado.”
Essa tensão emocional encontra eco numa tonalidade que o próprio associa tanto à tradição portuguesa como à brasileira: “Fala-se de fado, mas eu penso também no chorinho. Nos meus filmes há sempre essa alegria triste, ou tristeza alegre.” Daí a inclusão de uma composição de Guinga, sublinhando esse estado intermédio entre melancolia e leveza.
Por fim, quando confrontado com a ideia de identidade, Oksman prefere inverter a pergunta: “Só consegui fazer filmes em Espanha e encontrar o meu lugar, mesmo que num circuito restrito, por ser brasileiro. As minhas chaves de leitura vêm da minha brasilidade — é isso que me permite fazer cinema. Sem isso, não faria este tipo de filme.”
O BAFICI termina no dia 26 de abril.

