É sob a égide do “cinema como missão“, nas palavras do seu diretor artístico, Giona A. Nazzaro, que arranca dia 7 de agosto, quarta-feira, a 77ª edição do Festival de Locarno, evento que se prolonga até ao próximo dia 17 na cidade suíça do cantão de Ticino.
Com diversas distinções destinadas a alguns dos maiores nomes do cinema mundial atual, como Alfonso Cuarón, Jane Campion, Mélanie Laurent e Guillaume Canet, e uma grande retrospectiva dedicada aos 100 anos da Columbia Pictures, Locarno volta a fazer da sua Competição Internacional (Concorso Internazionale), dos Cineastas do Presente (Cineasti del Presente) e dos Cineastas do Amanhã (Pardi di Domani) o seu grande chamariz, com diversos realizadores portugueses espalhados pelas suas diferentes secções.
Na luta pelo Leopardo de Ouro, Marta Mateus concorre com “Fogo do Vento”, uma longa metragem de estreia que acompanha alguns dos protagonistas do seu filme anterior, a curta metragem “Farpões Baldios”, cuja estreia mundial teve lugar no Festival de Cannes, na secção Quinzena dos Cinéastes em 2017. Aprofundando as histórias de uma comunidade na paisagem alentejana, “Fogo do Vento” é descrito como um “filme político que convoca a memória das gerações anteriores e nos transporta da resistência à ditadura salazarista ao tempo presente, numa reflexão sobre a guerra e paz, marcando a importância do seu discurso no atual contexto mundial”.

Nesta competição, ao lado de nomes consagrados do panorama mundial, onde se incluem Wang Bing (Youth (Hard Times)), Hong Sang Soo (By The Stream) e Ben Rivers (Bogancloch), encontramos ainda a sul-africana Pia Marais com “Tranzamazônia”, uma coprodução entre Suíça, Taiwan, Alemanha e Brasil que viaja até ao centro da floresta Amazónica para contar a história de um pai e uma filha cujos segredos do passado são despoletados após um grupo de madeireiros ilegais invadirem as terras pertencentes aos povos indígenas.
Viajando para a secção Cineastas do Presente e para Cabo Verde, o público suíço terá um primeiro vislumbre sobre “Hanami”, o novo filme de Denise Fernandes (Nha Mila). Filmado na Ilha do Fogo, o filme segue a história de uma menina durante a infância e a adolescência, mostrando as suas “dores de crescimento”, que incluem a ida dos seus conhecidos para outras paragens – tal qual aconteceu com a sua mãe, que há muito partiu para o estrangeiro e a deixou no local.

Já fora de competição encontramos mais um português, que ao contrário da sua história mais recente escolheu Locarno como palco para a estreia do seu mais recente filme, “Cartas Telepáticas”, ao invés de Roterdão. O inevitável Edgar Pêra, sempre dado a experiências cinematográficas, desta vez utilizou Inteligência Artificial para colocar em diálogo dois dos seus escritores preferidos: Fernando Pessoa e H.P. Lovecraft.
O Festival de Locarno arranca oficialmente na quarta-feira à noite com a estreia mundial de “Le Déluge” ( O Dilúvio), com cerca de 8.000 pessoas preparadas para encherem a Piazza Grande da cidade suíça. Escrito e realizado pelo italiano Gianluca Jodice, o filme apresenta Mélanie Laurent e Guillaume Canet como Maria Antonieta e Luís XVI. O ano é 1792, quando os dois e os seus filhos foram presos e encarcerados num castelo em Paris, aguardando julgamento.
Pela Piazza Grande vão ainda passar, ao longo do certame, vários filmes, incluindo “Electric Child” de Simon Jaquemet, “Mexico 86” de César Díaz; “The Seed of the Sacred Fig” de Mohammad Rasoulof; “Shambhala” de Min Bahadur Bham; “Le Procès du chien” de Laetitia Dosch; “Rita” de Paz Vega; e “Sauvages” de Claude Barras.

